Durante anos, muitas organizações trataram a saúde mental como um tema delicado demais para ser trazido para dentro da empresa; era assunto «pessoal», «privado», «sensível», muitas vezes empurrado para fora das conversas de gestão.
Texto: Cristina Nogueira da Fonseca Imagem: Pexels
Mas os dados começam a mostrar aquilo que muitos colaboradores já sabem há muito tempo: a saúde mental não fica à porta quando alguém entra no trabalho.
Segundo o NAMI/ Ipsos Workplace Mental Health Poll 2025, um em cada quatro colaboradores já ponderou sair do emprego por motivos de saúde mental.
Este dado tem de inquietar qualquer líder, gestor de pessoas ou empresário, sobretudo porque revela uma mudança profunda na relação entre pessoas e organizações; as pessoas não estão apenas a sair por melhores salários, novos desafios ou progressão de carreira, estão a fazê-lo porque já não conseguem continuar em ambientes que as desgastam ou desumanizam.
O silêncio não é neutro. Quando uma organização evita falar de saúde mental, passa a mensagem clara de que «isto não é assunto para ser tratado aqui», e o problema é que, para muitos colaboradores, é precisamente «aqui» que parte significativa do sofrimento está a ser criado ou agravado.
Carga de trabalho excessiva, lideranças impreparadas, falta de reconhecimento, comunicação agressiva, pressão permanente, insegurança psicológica, ausência de autonomia, objetivos irrealistas e culturas que glorificam a disponibilidade total não são apenas problemas operacionais, são condições que afetam diretamente a saúde mental das pessoas.
O bem-estar nas organizações tem sido tratado como um benefício simpático: uma palestra inspiradora, uma aula de yoga, uma aplicação de mindfulness, uma ação pontual no mês da saúde mental, e sim, tudo isso claro que tem valor, mas não chega.
Proteger a saúde mental dos colaboradores não é paternalismo, não é fragilizar a empresa, não é fazer de líderes os terapeutas, mas é assumir que uma organização saudável precisa de condições de trabalho saudáveis, relações saudáveis e lideranças minimamente conscientes do impacto que têm nas pessoas.
O bem-estar nas organizações tem sido tratado como um benefício simpático: uma palestra inspiradora, uma aula de yoga, uma aplicação de mindfulness, uma ação pontual no mês da saúde mental, e sim, tudo isso claro que tem valor, mas não chega.
A experiência do colaborador não se mede só no onboarding, nos benefícios ou nos eventos internos; mede-se pela forma como uma pessoa se sente no dia-a-dia: se pode falar sem medo, se é respeitada, se tem espaço para recuperar, se a sua carga de trabalho é sustentável, se sente que a liderança a vê como pessoa e não apenas como recurso.
O dado «um em cada quatro colaboradores já ponderou sair» deve ser lido como um sinal de alerta, porque antes de um colaborador sair fisicamente, muitas vezes já saiu emocionalmente, já deixou de confiar, de se envolver e de acreditar que vale a pena dar mais de si naquele contexto.
Em 2026, a pergunta que as empresas devem fazer é: «Quanto talento estamos dispostos a perder por continuar a evitar esta conversa?»
Falar de saúde mental no trabalho não resolve tudo, mas não falar agrava quase tudo.
Talvez o futuro do trabalho comece precisamente aqui: quando deixamos de perguntar quanto custa cuidar das pessoas e começamos a perguntar quanto custa não cuidar.

Cristina Nogueira da Fonseca, Executive Director da Happytown Portugal (presença no LinkedIn aqui)

A Happytown Portugal, fundada em 2016, é a primeira consultora portuguesa dedicada em exclusivo à felicidade e ao bem-estar nas organizações. Em 2025 continua com a missão de criar relações de confiança com os seus clientes, promovendo competências e edificando estratégias para o fortalecimento das pessoas e dos seus negócios.
