Quando o candidato perfeito é a contratação errada

Texto: Helena Ravara

Quando uma organização inicia um processo de recrutamento, tende a definir um perfil ideal, traduzido numa extensa lista de requisitos ao nível da experiência, dos conhecimentos técnicos e das competências comportamentais. Neste contexto, o candidato que obtém as pontuações mais elevadas em todas as dimensões num assessment pode parecer, à primeira vista, a escolha mais segura. É precisamente aqui que reside o equívoco: avaliar talento não significa procurar alguém sem fragilidades.

Na realidade, todas as pessoas combinam pontos fortes com áreas de melhoria. É precisamente na identificação e análise desse conjunto (motivações, competências, potencial de evolução e fatores de riscos) que o assessment acrescenta valor, contribuindo para uma decisão de contratação mais rigorosa e ajustada à realidade da organização.

O ponto de partida deve ser o contexto. O que se espera deste profissional no curto prazo? E a médio e longo prazo? As respostas são determinantes para perceber que motivações melhor se ajustam à função, qual a relevância do potencial de evolução, que competências comportamentais serão críticas e que áreas de melhoria poderão ser enquadradas e desenvolvidas com o apoio da organização.

Um profissional com elevada ambição, rapidez de decisão e forte orientação para resultados pode destacar-se num assessment e, ainda assim, sentir-se limitado numa função com pouca autonomia ou reduzidas perspetivas de progressão. Da mesma forma, uma pessoa particularmente assertiva e dominante pode ser muito eficaz num contexto que exige transformação e confronto de ideias, mas gerar discordância numa equipa que já enfrenta problemas de confiança. A mesma característica pode representar uma vantagem ou um risco, consoante o contexto.

Um conhecimento aprofundado das áreas de melhoria permite avaliar se estas são críticas para o desempenho da função, se podem ser desenvolvidas e que risco efetivamente representam. Não se trata de penalizar fragilidades, mas de as compreender e antecipar o seu impacto. Quando a decisão é contratar, esta informação permite também definir um plano de integração e desenvolvimento mais direcionado e eficaz.

O assessment ajuda ainda a distinguir capacidade atual de potencial de evolução. Quem está mais preparado hoje, nem sempre será quem responde melhor às exigências de amanhã. Curiosidade, agilidade de aprendizagem, disponibilidade para feedback e motivação podem revelar uma margem de crescimento que, de outra forma, passaria despercebida. Em sentido inverso, experiência e desempenho elevados não garantem motivação nem capacidade para acompanhar uma mudança de escala, estratégia ou cultura.

Transformar o assessment numa procura pelo «candidato perfeito»”, baseada no somatório das pontuações mais elevadas, é reduzir uma metodologia sofisticada a uma tabela classificativa. Além disso, cria uma falsa sensação de objetividade. O rigor não resulta de somar resultados, mas de integrar as evidências recolhidas através das diferentes ferramentas e interpretá-las à luz das exigências da função, da dinâmica da equipa e das prioridades do negócio.

A melhor contratação não é necessariamente a pessoa que pontua melhor em tudo. É aquela cuja combinação de competências, potencial, motivações e riscos oferece a resposta mais adequada à função, à equipa e ao contexto da organização.



Helena Ravara
, Head of Talent Assessment & Advisory na Neves de Almeida (presença no LinkedIn aqui)


A Neves de Almeida – Search & Talent Advisory é uma consultora de referência especializada em Executive Search, Talent Acquisition, Assessment e Talent Advisory para cargos de middle, senior e top management. Com mais de 30 anos de experiência e integrada no Grupo Cegos desde 2023, apoia organizações na identificação, na atração e na avaliação de talento estratégico, com uma abordagem consultiva e um profundo conhecimento do mercado.

Em 2026, foi distinguida nos Prémios Melhores Fornecedores RH, promovidos pela Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas (APG), na categoria de Recrutamento, Seleção, Avaliação de Competências e Outplacement, reconhecimento atribuído com base na avaliação direta do mercado e das organizações clientes.

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