A Academia Negócios de Saúde, liderada por Ana Gonçalves, promove este mês (dias 25 e 26), em Santarém, o Congresso de Gestão e Empreendedorismo em Saúde. Oportunidade para uma conversa com a empreendedora, que assinala que em saúde a complexidade é acrescida, por se tratar de sector altamente regulado e onde existe uma enorme responsabilidade.
Texto: Redação «human» Fotos: DR
Pode apresentar-nos a Academia Negócios de Saúde e falar um pouco dos seus objetivos?
A Academia Negócios de Saúde nasceu com uma missão muito clara, a de ajudar profissionais de saúde a tornarem-se também melhores gestores e empreendedores.
Somos muito bem preparados tecnicamente nas nossas áreas, mas a verdade é que ninguém nos ensina a gerir um negócio de saúde. Não aprendemos nada associado a finanças ou estratégia de negócio, como liderar, gerir equipas ou lidar com o cliente. Depois, abrimos clínicas, consultórios e outros projetos e percebemos que ser um excelente profissional de saúde não é suficiente para construir um negócio sustentável.
A academia existe precisamente para preencher essa lacuna. Através de formação, mentoria e eventos, damos ferramentas práticas de gestão a quem quer criar, fazer crescer ou profissionalizar um negócio na área da saúde.
Dessa forma, o nosso grande objetivo é contribuir para negócios de saúde mais sustentáveis e bem geridos. Acredito profundamente que melhores negócios também criam melhores condições para os profissionais, para as equipas e para os clientes.
Como surgiu este projeto e como olha agora para o percurso que têm feito?
Este projeto nasceu, em grande parte, da minha própria experiência.
Sou fisioterapeuta de formação e empresária há muitos anos. Quando comecei a gerir, senti exatamente aquilo que muitos profissionais de saúde sentem, isto é, percebia de saúde, mas havia todo um mundo de gestão para o qual não tinha sido preparada.
Foi essa necessidade que me levou a estudar gestão e, mais tarde, a começar a partilhar aquilo que ia aprendendo e aplicando nos meus próprios negócios. Em 2020 comecei a trabalhar de forma mais estruturada em consultoria e mentoria a profissionais de saúde, e daí nasceu a Academia Negócios de Saúde.
Hoje olho para o percurso com muito orgulho, sobretudo porque aquilo que começou pela identificação de uma necessidade se transformou numa comunidade de profissionais e empresários de saúde que querem fazer diferente. E acho que ainda estamos no início. A profissionalização da gestão na saúde vai ser cada vez mais determinante nos próximos anos.
O que visa a academia com o Congresso de Gestão e Empreendedorismo em Saúde?
O congresso pretende criar um espaço onde se fala de saúde para além da componente clínica. Queremos falar de gestão, liderança, inovação, tecnologia, marketing, experiência do cliente, empreendedorismo, estratégia e futuro.
Durante muitos anos, estes temas foram quase secundários no sector da saúde. Hoje não podem ser. O congresso junta profissionais, gestores, empresários e líderes para partilharem conhecimento, experiências e diferentes perspetivas, mas também para criarem relações. Além disso, junta as várias áreas da saúde, desde fisioterapeutas, médicos dentistas, veterinários, psicólogos… Porque nestas vertentes temos todos a aprender uns com os outros.
Queremos que as pessoas saiam do congresso, não apenas inspiradas, mas com ideias concretas que possam aplicar no dia seguinte nos seus negócios e nas suas organizações.
Quando começou o evento e que balanço fazem das edições já realizadas?
Esta será a quarta edição do Congresso de Gestão e Empreendedorismo em Saúde e o balanço das edições anteriores é extremamente positivo.
Temos assistido ao crescimento do evento, mas aquilo que mais valorizamos é o crescimento da própria comunidade. Percebemos que existe uma enorme vontade dos profissionais de saúde de discutir estes temas, conhecer outras realidades e aprender com pessoas que estão efetivamente a gerir, liderar e empreender.
Nesta edição, esperamos chegar aos 1.200 participantes, o que demonstra também que a gestão e o empreendedorismo deixaram definitivamente de ser assuntos de nicho dentro da saúde.
Qual é o grande propósito do evento?
O grande propósito é provocar evolução. Queremos tirar os profissionais de saúde da sua realidade diária durante dois dias e permitir-lhes olhar para o seu negócio, para a sua carreira e para o sector com outra perspetiva. Há uma frase que utilizo muitas vezes: não podemos gerir os negócios de amanhã com as ferramentas de ontem.
O sector está a mudar muito rapidamente e precisamos de criar espaços onde seja possível discutir essas mudanças, questionar modelos e preparar melhor quem vai liderar a saúde nos próximos anos.
Queremos que entrem como profissionais de saúde e saiam a sentir-se verdadeiros líderes das suas clínicas.
«O Congresso de Gestão e Empreendedorismo em Saúde pretende criar um espaço onde se fala de saúde para além da componente clínica. Queremos falar de gestão, liderança, inovação, tecnologia, marketing, experiência do cliente, empreendedorismo, estratégia e futuro.»

Que temas destaca na edição deste ano?
Teremos temas muito ligados aos desafios atuais das organizações de saúde, e que vão da liderança e gestão de equipas, inteligência artificial, inovação e tecnologia, experiência do cliente, marketing, vendas, estratégia, finanças, produtividade e empreendedorismo.
Mas procuramos também trazer temas que nos obriguem a pensar no futuro. Não queremos falar apenas sobre como gerir melhor aquilo que existe hoje. Queremos discutir como serão os negócios de saúde daqui a cinco ou 10 anos e que competências vão ser necessárias para os liderar.
A que profissionais se dirige o congresso?
Dirige-se a profissionais de saúde, empresários, gestores, diretores clínicos, líderes de equipas e também a profissionais que estejam a pensar criar o seu próprio projeto.
É um congresso transversal às diferentes áreas da saúde. Temos médicos, fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, nutricionistas, enfermeiros, farmacêuticos e muitos outros profissionais.
O denominador comum não é propriamente a profissão. É a vontade de fazer melhor, liderar melhor e compreender para aonde está a caminhar o sector.
Com que estrutura contam para a organização do evento?
Um evento desta dimensão implica uma estrutura muito significativa e muitos meses de preparação.
Temos uma equipa dedicada a organização, produção, comunicação, marketing, relação com parceiros, patrocinadores, oradores e participantes, para além de toda a componente logística. Nos dias do congresso, essa estrutura cresce ainda mais.
Há muito trabalho que ninguém vê e isso é normalmente um bom sinal. Quando um evento parece simples para quem está a assistir, significa que houve uma enorme complexidade nos bastidores para que tudo funcionasse.
Como sintetiza as especificidades do sector da saúde em termos de negócio, gestão e recursos humanos?
A saúde tem uma particularidade muito relevante, pois estamos a gerir negócios mas também estamos a trabalhar com pessoas num contexto de enorme vulnerabilidade e confiança. Isso muda tudo.
Não podemos aplicar simplesmente modelos de gestão de outros sectores sem compreender esta realidade. Existe uma componente ética, regulatória e humana muito forte. Ao mesmo tempo, continuamos a precisar de sustentabilidade financeira e produtividade.
E existe ainda outra especificidade, a de serem negócios extremamente dependentes de pessoas. Podemos ter a melhor tecnologia e as melhores instalações, mas a qualidade da experiência continua muito dependente de quem atende, comunica, lidera ou presta os cuidados. Por isso, gerir saúde exige encontrar permanentemente um equilíbrio entre humanidade e gestão.
O sector tem passado por grandes transformações?
Enormes. E acredito que a velocidade da transformação vai aumentar. Estamos perante clientes mais informados e exigentes, novas tecnologias, inteligência artificial, novos modelos de prestação de cuidados, dificuldade em captar e reter profissionais, pressão sobre os custos e uma preocupação crescente com prevenção, longevidade e personalização dos cuidados.
Também mudou a forma como as pessoas escolhem um profissional ou uma organização de saúde. Hoje pesquisam, comparam, procuram informação, avaliam a reputação e esperam uma experiência muito diferente daquela que aceitavam há 10 ou 15 anos. As organizações que não acompanharem esta mudança vão sentir cada vez mais dificuldades.
«A saúde tem uma particularidade muito relevante, pois estamos a gerir negócios mas também estamos a trabalhar com pessoas num contexto de enorme vulnerabilidade e confiança. Isso muda tudo. Não podemos aplicar simplesmente modelos de gestão de outros sectores sem compreender esta realidade.»

Sendo um dos sectores onde mais se destaca a dicotomia público-privado, tem também desafios acrescidos, precisamente por essa característica?
Sim, mas prefiro não olhar para o público e para o privado apenas como dois lados opostos. Portugal precisa dos dois.
Temos desafios muito relevantes no acesso aos cuidados de saúde e acredito que a resposta passa também por conseguirmos criar modelos de complementaridade e colaboração. Naturalmente, existem diferenças de objetivos, funcionamento e constrangimentos, mas existe um objetivo que deveria ser comum, o de garantir melhores cuidados e maior acesso à população.
O desafio está em encontrar modelos sustentáveis, transparentes e eficientes que permitam aproveitar melhor os recursos existentes no sistema.
Onde estão os maiores desafios do sector?
Destacaria três grandes desafios.
O primeiro são as pessoas, através da capacidade de captar talento, desenvolver profissionais, criar boas lideranças e conseguir reter equipas.
O segundo é a sustentabilidade. Os custos aumentaram significativamente e muitas organizações continuam sem conhecer verdadeiramente os seus números, as suas margens ou a produtividade dos seus serviços.
E o terceiro é a transformação tecnológica. A inteligência artificial e a automação vão alterar profundamente processos, funções e até a forma como algumas profissões são exercidas. A tecnologia não vai retirar importância às pessoas. Vai aumentar a diferença entre as organizações que sabem utilizá-la e aquelas que não sabem.
Gostávamos ainda que falasse um pouco de vários tópicos em relação ao sector. Primeiro, o impacto da tecnologia?
A tecnologia vai ter um impacto gigantesco. Já estamos a assistir à utilização da inteligência artificial em áreas administrativas, apoio à decisão, análise de dados, comunicação, acompanhamento de clientes e otimização de processos.
Mas, para mim, a discussão mais interessante não é saber se a inteligência artificial vai substituir pessoas. É perceber quais são as tarefas que já não faz sentido continuarem a ser realizadas por pessoas.
Se conseguirmos utilizar tecnologia para retirar trabalho repetitivo e burocrático às equipas, podemos devolver-lhes tempo para aquilo em que verdadeiramente acrescentam valor, o pensamento, a decisão, a criação de relações e o cuidado em relação ao outro. O grande desafio não será ter tecnologia. Será integrá-la bem nas organizações sem perder a dimensão humana da saúde.
Outro tópico tem a ver com gestão, liderança e desenvolvimento dos recursos humanos. Qual é a sua perspetiva aqui?
Este é provavelmente um dos temas que mais me preocupa.
Durante muito tempo promovemos excelentes técnicos a líderes, e esperámos que soubessem liderar naturalmente. Mas a liderança é uma competência e, como qualquer competência, precisa de ser desenvolvida.
As novas gerações também têm expectativas diferentes relativamente ao trabalho, à liderança, à autonomia, ao reconhecimento e ao equilíbrio entre a vida profissional e vida pessoal. Isso obriga as organizações a mudar.
Mas gosto de deixar claro que criar melhores culturas não significa diminuir a exigência. Pelo contrário. Acredito em organizações onde existe humanidade, mas também responsabilidade; autonomia, mas também objetivos; reconhecimento, mas também avaliação de desempenho. Boas equipas precisam de bons ambientes, mas precisam igualmente de bons líderes e de regras claras.
Finalmente, um terceiro tópico, ligado a empreendedorismo no sector e relação com o Estado e com o Serviço Nacional de Saúde. Quais são aqui os principais desafios?
Empreender em saúde tem uma complexidade acrescida porque estamos num sector altamente regulado e onde existe uma enorme responsabilidade. Precisamos de garantir qualidade e segurança, mas também de criar condições para inovar.
Um dos desafios é precisamente encontrar esse equilíbrio. Há que ter regulação suficientemente forte para proteger as pessoas, sem criar uma complexidade que impeça a inovação ou torne os processos excessivamente burocráticos.
Na relação entre o Estado, o Serviço Nacional de Saúde e o sector privado, acredito que precisamos de menos discussão ideológica e de mais discussão sobre resultados. Que modelos permitem aumentar o acesso? Quais permitem utilizar melhor os recursos? Onde conseguimos reduzir desperdício? Como conseguimos garantir qualidade e sustentabilidade? Para mim, estas são as perguntas realmente importantes.
«Tenho trabalhado muito na criação de lideranças, processos, autonomia e responsabilização dentro das organizações. Hoje, este desafio está muito controlado, mas é algo que tenho constantemente na cabeça para não cair na armadilha de ter uma eu-presa em vez de uma empresa.»

O que é que a motiva para trabalhar neste sector?
A possibilidade de gerar impacto. A saúde é um sector onde aquilo que fazemos tem consequências muito concretas na vida das pessoas. Mas aquilo que hoje mais me motiva é perceber que posso multiplicar esse impacto através dos empresários e líderes que ajudamos.
Quando ajudamos uma clínica a organizar-se melhor, a tornar-se sustentável, a desenvolver os seus líderes ou a criar melhores condições para a equipa, o impacto não fica naquele empresário. Chega aos profissionais que trabalham com ele e aos milhares de clientes que passam por aquela organização. Essa capacidade de multiplicação é provavelmente aquilo que hoje mais me entusiasma.
Pode falar-nos um pouco dos projetos a que está ligada?
Tenho uma vida profissional bastante diversificada, mas com um fio condutor muito claro, a saúde, a gestão e o empreendedorismo.
Sou empresária e estou ligada à gestão de várias clínicas e projetos de saúde. Sou CEO [chief executive officer] da Clínica Fisiotorres e do Espaço Saúde Física em Torres Vedras e na Silveira. Tenho, por isso, a experiência dos dois contextos, privado e público. Sou fundadora e CEO da Academia Negócios de Saúde, onde desenvolvemos formação, mentoria e eventos para profissionais e empresários do sector.
Sou também autora do livro A Arte de Gerir um Negócio de Saúde, lançado em 2025, e do podcast Olho prá Coisa!, que é outra forma de partilhar aquilo que vou aprendendo enquanto empresária e gestora.
Paralelamente, continuo envolvida em novos projetos empresariais e gosto particularmente dessa componente de criar, testar e transformar ideias em negócios. Não me vejo apenas como formadora ou consultora. Continuo a gerir empresas todos os dias e isso é muito importante para mim, porque aquilo que ensino nasce, em grande parte, daquilo que vivo na prática.
Quais são os seus grandes desafios enquanto gestora?
Acho que há um desafio que é transversal a qualquer empreendedor, o de não sermos o centro de tudo.
No início, fazemos tudo. Depois criamos uma equipa. E, a determinada altura, percebemos que se todas as decisões continuarem a passar por nós deixamos de ser o motor do crescimento e passamos a ser o travão.
Tenho trabalhado muito na criação de lideranças, processos, autonomia e responsabilização dentro das organizações. Hoje, este desafio está muito controlado, mas é algo que tenho constantemente na cabeça para não cair na armadilha de ter uma eu-presa em vez de uma empresa.
…
Deixo ainda uma mensagem aos profissionais de saúde que têm ou querem criar um negócio: não tenham receio da palavra «negócio».
Durante demasiado tempo existiu quase uma incompatibilidade entre falar de saúde e falar de gestão, vendas, rentabilidade ou crescimento. Eu vejo precisamente o contrário.
Um negócio financeiramente saudável consegue investir em melhores profissionais, melhores instalações, melhor tecnologia, melhores processos e melhores condições para as suas equipas. Não existe qualidade sustentável sem sustentabilidade.
Acredito que esta mudança de mentalidade é essencial para construirmos organizações de saúde mais fortes e preparadas para o futuro.
—

Ana Gonçalves
Especialista na área da saúde com mestrado em Gestão de Empresas, desde 2020 que através do digital ajuda centenas de profissionais de saúde a alcançarem o sucesso nos seus negócios.
É chief executive officer (CEO) de três espaços de saúde, owner da Academia Negócios de Saúde e mãe de três filhos. Viu na pandemia uma oportunidade de ir para o digital e ajudar outros empreendedores a não fecharem portas. Hoje, a Academia Negócios de Saúde já ajudou milhares de profissionais de saúde a alcançar o sucesso, com solidez e foco, sem o seu sacrifício pessoal.
Concluiu o Executive Master em Gestão de Serviços de Saúde, pelo INDEG – Iscte Executive Education, em 2018, tendo recebido o Prémio de Melhor Aluno.
Em 2020, concluiu o Mestrado em Gestão de Empresas, realizado no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – Instituto Universitário de Lisboa (Iscte).
Em pouco tempo cimentou a sua marca pessoal e tornou-se numa verdadeira referência na área da saúde, em liderança e em marketing.
Líder nata e mentora, é uma inspiração para todos aqueles que sonham ter liberdade de tempo e liberdade financeira enquanto donos do seu negócio.
Em 2025 lançou o seu primeiro livro, A Arte de Gerir um Negócio de Sucesso, onde com uma abordagem autêntica e transparente relata os erros que cometeu ao longo do seu percurso e todas as aprendizagens que fizeram a diferença na construção de tudo aquilo que conseguiu alcançar até hoje.
– Lidera mais de 100 colaboradores nas suas organizações, o que lhe dá uma grande bagagem em liderança.
É atleta federada de ténis.
