A inclusão também tem idade

Texto: Maria Duarte Bello Imagem: Pexels/ Antoni Shkraba

Não estou apenas a falar de contratar pessoas com mais de 50 ou 60 anos. Isso seria reduzir demasiado o problema. A verdadeira questão é perceber que idade têm, nas nossas organizações, as pessoas a quem ainda atribuímos futuro.

Quem é escolhido para representar a empresa quando ela quer parecer inovadora? Quem aparece nas campanhas de employer branding? Quem é convidado para testar uma nova tecnologia? Em quem se pensa quando surge um projeto que só dará resultados daqui a cinco anos? A quem se pergunta «onde te imaginas no futuro?» e a quem se começa a perguntar «já pensaste no que vais fazer depois?», discretamente?

É nestes pequenos gestos que a inclusão etária se revela. Porque podemos ter quatro gerações numa empresa e continuar a imaginar o futuro apenas com duas.

Podemos falar de inteligência artificial (IA) e assumir que os mais novos serão naturalmente os protagonistas da transformação, esquecendo que a tecnologia se aprende e que aquilo que demora décadas a construir como julgamento, contexto, capacidade de ler pessoas, memória dos erros, não vem instalado em nenhuma aplicação.

Podemos também cair no preconceito contrário e decidir que todos os profissionais mais velhos devem tornar-se mentores. Como se, depois de determinada idade, deixassem de ter direito à ambição e passassem obrigatoriamente para o papel de quem aconselha os outros. Nem toda a gente quer transmitir o testemunho. Há quem ainda queira correr com ele.

Até a linguagem denuncia esta forma de pensar. Falamos de «jovens talentos» com uma naturalidade extraordinária, como se talento tivesse uma faixa etária. Chamamos «promessa» a alguém com 30 anos e «experiente» a alguém com 55. Uma palavra aponta para aquilo que ainda pode acontecer. A outra parece resumir aquilo que já aconteceu.

Acredito que é aqui que começa a verdadeira inclusão etária: na capacidade de não transformar a idade numa previsão.

Uma pessoa de 60 anos pode estar a começar a fase profissional mais criativa da sua vida. Outra de 35 pode estar completamente desinvestida. Uma pode querer estabilidade, outra risco. Uma pode dominar IA, outra não querer saber dela. A idade dá-nos informação sobre o tempo que alguém viveu. Não nos diz quanto futuro essa pessoa ainda imagina para si.

Creio que neste tempo de vidas mais longas, as organizações devem rever uma ideia profundamente instalada, a de que o potencial diminui à medida que a idade aumenta.

A meu ver, uma empresa pode ter todas as idades dentro de portas e não ser verdadeiramente inclusiva. A diversidade conta quantas gerações estão na sala. A inclusão percebe a quem, nessa sala, ainda é permitido ter futuro.



Maria Duarte Bello
, Chief Executive Officer (CEO) da MDB Coaching & Mentoring


MDB Coaching & Mentoring

Através da MDB Coaching & Mentoring, Maria Duarte Bello orienta e acompanha pessoas, equipas e organizações em processos de desenvolvimento ou mudança, progresso, crescimento e evolução. Desde 2002, é pioneira no coaching, tendo criado a sua atividade através da marca MDB. Trabalha num registo único, pela confidencialidade total, pela confiança estabelecida, pela oportunidade exclusiva de conversar com toda a liberdade e pelo apoio incondicional dedicado ao sucesso de cada cliente.

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