Muitas dificuldades, muitas decisões tomadas com risco e muita capacidade de resistência. Lúcia Encarnação, cofundadora da Cocktail Team, conta-nos a história de mais de duas décadas de um projeto único em Portugal.
Texto: Redação «human» Foto: DR
O que esteve na base da criação da Cocktail Team?
A Cocktail Team nasceu da conjugação de duas dimensões muito complementares, a componente técnica e operacional do Hugo Silva, ligada à hotelaria, ao bar e às marcas de bebidas; e a minha visão, mais ligada ao marketing, à comunicação e ao desenvolvimento de negócio.
Na altura, o Hugo já tinha um percurso muito diferenciador. Estudou na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, foi consultor de vinhos muito jovem e tornou-se também o primeiro embaixador exclusivo de uma marca de bebidas em Portugal, representando a Absolut Vodka. Eu estava no último ano da licenciatura em Marketing e acompanhava muitas das ativações que ele fazia de norte a sul do país.
Durante o dia, o Hugo dava formação às equipas de bar; à noite, fazia essas ativações em bares e discotecas. Era muito frequente as pessoas abordarem-no, com vontade aprender mais sobre a área, pelo que vi aí uma oportunidade clara. Existia talento, existia curiosidade, existia procura, mas faltava em Portugal uma escola especializada exclusivamente na área de bar, com uma abordagem técnica, profissional e certificada.
Havia escolas de hotelaria, naturalmente, mas a formação era mais abrangente. Quem queria especializar-se em bar tinha de passar por várias áreas antes de chegar ao que realmente procurava. O Hugo tinha sentido essa dificuldade no seu próprio percurso. Percebemos, por isso, que havia uma lacuna no mercado.
A Cocktail Team nasceu dessa convicção, a de que o bartending podia e devia ser tratado como uma profissão exigente, qualificada e valorizada. Desde o início, quisemos fazer tudo de forma profissional. Abrimos portas a 21 de março de 2005 e em 2008 tornámo-nos a primeira escola de bar certificada em Portugal. Esse foi um marco muito importante, porque confirmou a nossa visão inicial, a de haver espaço para criar algo, sério e estruturado, nesta área.
Como olha para o percurso que tem feito com este projeto?
Com muito orgulho, mas também com muita consciência do caminho que foi necessário fazer. Quando começámos, éramos muito jovens. Tínhamos pouco mais de 20 anos, muita vontade, muita energia e uma enorme convicção, mas não tínhamos propriamente um manual de instruções sobre como construir uma empresa.
Não vínhamos de famílias empresariais, não tínhamos uma estrutura financeira confortável nem alguém a indicar-nos o caminho. Tivemos de aprender, fazendo. Houve muita tentativa e erro, muitas dificuldades, muitas decisões tomadas com risco e muita capacidade de resistência.
Mas acredito que esse percurso nos deu uma base muito sólida. A Cocktail Team tem hoje 21 anos porque, apesar de todas as dificuldades, fomos capazes de aprender, adaptar, inovar e manter uma enorme exigência sobre aquilo que fazemos.
Ao longo destes anos, crescemos enquanto empresa e também enquanto pessoas. Começámos com uma ideia muito concreta, profissionalizar a área de bar, e hoje atuamos em três áreas complementares: formação, eventos e consultoria. Conseguimos contribuir para a valorização da profissão de bartender, para a evolução da experiência de bar em eventos e para a melhoria das operações de muitos hotéis, restaurantes e marcas.
Também sinto que uma das maiores aprendizagens foi na gestão de pessoas. O negócio aprende-se, melhora-se, adapta-se. Mas liderar pessoas, criar cultura, manter equipas alinhadas e garantir consistência é talvez o maior desafio de qualquer empresa.
Sou uma pessoa muito exigente e perfeccionista. Durante muito tempo, uma das minhas dificuldades foi perceber que o meu sentido de urgência, de detalhe e de responsabilidade não era necessariamente igual ao das outras pessoas. Aprendi que liderar é também traduzir expectativas, formar, acompanhar e criar processos claros.
Perante tudo isto, o percurso da Cocktail Team não foi linear, mas foi sempre de crescimento. Crescimento de mercado, de equipa, de reconhecimento, de ambição e de maturidade.
«Talvez o nosso maior sucesso seja a consistência. Estarmos há 21 anos no mercado, numa área que praticamente não existia quando começámos, e continuarmos relevantes, reconhecidos e em crescimento, é para mim um enorme sucesso.»

Pode deixar algumas diferenças significativas ao nível do mercado da empresa, nos seus primeiros anos e agora?
O mercado é hoje completamente diferente. Quando começámos, praticamente não havia concorrência direta. Mas também não havia uma perceção clara do valor da área de bar.
Nos primeiros anos, o bar era muitas vezes visto como algo funcional, para servir bebidas, colocar líquido dentro dos copos. Hoje, felizmente, o mercado evoluiu muito. O bar passou a ser entendido como uma experiência. Num evento, já não se espera apenas que exista um balcão a servir bebidas; espera-se criatividade, personalização, interação, estética, técnica e capacidade de surpreender.
A mesma evolução aconteceu na consultoria. Há 20 anos, muitas pessoas abriam bares sem grande planeamento técnico, sem carta estruturada, sem formação especializada das equipas e sem uma identidade clara na experiência de consumo. Hoje, quem abre um bar, um restaurante ou uma unidade hoteleira, tem muito mais consciência da importância de uma carta de cocktails bem construída, de bebidas de assinatura, de formação técnica, de gestão e de consistência operacional.
Na formação, a evolução também é muito evidente. Antigamente, muitas pessoas chegavam à área de bar por acaso. Hoje, cada vez mais, percebem que precisam de qualificação. A profissão tornou-se mais exigente. Um bartender não é apenas alguém que serve bebidas. Tem de dominar técnica, produto, atendimento, experiência de cliente, criatividade, higiene, rapidez, comunicação e postura.
Essa mudança é muito positiva. A existência de mais concorrência também é positiva, porque significa que o mercado cresceu e que a área ganhou relevância. Quando começámos, tivemos de explicar ao mercado porque é que isto fazia sentido. Hoje, o mercado já reconhece essa necessidade.
Nota diferenças na generalidade do mundo corporativo em Portugal, pensando nas duas épocas?
Sim, noto muitas diferenças. O mundo corporativo mudou bastante, sobretudo na forma como olha para as pessoas, para a retenção de talento e para a experiência interna das equipas.
Há 20 anos, poucas empresas investiam de forma consistente em experiências para colaboradores, team buildings, workshops ou momentos de ligação entre equipas. Hoje, isso é muito diferente. As empresas perceberam que as pessoas precisam de se sentir envolvidas, reconhecidas e valorizadas.
Existe também maior volatilidade nas equipas. Fala-se mais de retenção, de cultura, de employer branding, de bem-estar, de engagement e de motivação. E isso trouxe novas oportunidades para empresas como a Cocktail Team, porque as nossas experiências têm precisamente essa capacidade de juntar pessoas de uma forma leve, criativa e memorável.
Somos muitas vezes contratados para team buildings de cocktails, cocktail challenges, workshops de gin, experiências moleculares ou ativações temáticas. As empresas procuram momentos que saiam do formato tradicional e que permitam às equipas interagir, rir, colaborar e criar memórias em conjunto.
Sinto que hoje as organizações estão muito mais conscientes de que a relação com os colaboradores não se constrói apenas com salário ou benefícios formais. Também se constrói com experiências, cultura, proximidade e momentos partilhados.
Que proposta de valor tem a Cocktail Team para o mercado?
A grande proposta de valor da Cocktail Team está na combinação entre conhecimento técnico, criatividade, experiência prática e paixão pela área de bar.
Nós não somos apenas uma empresa que presta serviços de bar, nem apenas uma escola, nem apenas uma consultora. Somos uma empresa que nasceu dentro do próprio sector e que conhece profundamente a realidade do bar, da hotelaria, dos eventos e da formação.
Na área dos eventos, a nossa diferença está na capacidade de transformar o bar numa experiência. Não levamos apenas bartenders e bebidas; levamos conceito, personalização, interação e memória. Podemos criar um cocktail inspirado numa marca, num produto, numa pedra de mármore, numa entrega de prémios ou num determinado território. Podemos imprimir logótipos em cocktails, servir bebidas em formato molecular ou criar experiências completamente desenhadas para aquele cliente e aquele momento.
Na formação, a nossa proposta de valor está na especialização e na ligação ao mercado. Formamos pessoas para uma profissão real, com exigência real. Muitos alunos chegam à Cocktail Team porque querem mudar de vida, especializar-se ou entrar numa área com empregabilidade. E uma das maiores satisfações é perceber que muitos deles ainda nem terminaram a formação e já têm oportunidades profissionais.
Na consultoria, trabalhamos com hotéis, bares, restaurantes e marcas que querem elevar a sua operação. Ajudamos a desenhar cartas, formar equipas, melhorar processos, criar bebidas de assinatura e implementar soluções com impacto real no negócio. No fundo, a nossa proposta de valor é levar o bar para outro nível.
«Sinto que hoje as organizações estão muito mais conscientes de que a relação com os colaboradores não se constrói apenas com salário ou benefícios formais. Também se constrói com experiências, cultura, proximidade e momentos partilhados.»

Que desafios surgem numa área tão exigente como a da formação, ainda por cima numa área tão específica como a vossa?
A formação na área de bar é muito exigente porque estamos a falar de uma profissão muito técnica, mas também muito exposta ao cliente, à experiência e às tendências internacionais.
Hoje, tudo o que acontece no mundo chega rapidamente a Portugal. As técnicas, os produtos, os estilos de serviço, as tendências de consumo, a sustentabilidade, os cocktails com menor teor alcoólico, a personalização e a própria forma como o cliente vive a experiência de bar, estão em constante transformação.
Esse é um desafio permanente, mas para nós é também uma das partes mais estimulantes do negócio. A Cocktail Team nasceu precisamente dessa vontade de fazer mais, melhor e diferente. Temos de estar sempre atentos ao que se faz lá fora, perceber o que pode ser adaptado ao mercado português e garantir que os nossos alunos e os nossos clientes recebem uma formação atual, prática e alinhada com a realidade do sector.
Na formação, o desafio não é apenas ensinar receitas ou técnicas. É formar profissionais capazes de responder a um mercado cada vez mais exigente, onde o cliente quer qualidade, rapidez, criatividade, postura e experiência. É isso que nos obriga a evoluir continuamente.
Como gerem a formação técnica com a formação em soft skills?
Gerimos as duas dimensões como partes inseparáveis da formação. Um bom bartender não é apenas alguém que domina técnicas, receitas ou produtos. É alguém que sabe estar, sabe comunicar, sabe receber, sabe trabalhar sob pressão e sabe representar uma marca, um bar, um hotel ou um evento.
A parte técnica é naturalmente essencial; mise en place, produtos, técnicas de bar, serviço, rapidez, higiene, organização, execução e criatividade. Mas cada vez mais sentimos que a formação comportamental é igualmente importante.
Trabalhamos muito a postura dos alunos. Desde a apresentação pessoal até à forma como falam com o cliente, como se comportam numa equipa, gerem o stress, organizam e respeitam o espaço de trabalho. No final das aulas, por exemplo, são os próprios alunos que arrumam a sala, limpam o espaço e deixam tudo preparado. Isso faz parte da aprendizagem. Um profissional de bar tem de compreender que a excelência também está nos bastidores.
Também falamos sobre redes sociais, imagem pessoal e responsabilidade. Hoje, a forma como uma pessoa se apresenta publicamente também comunica profissionalismo, ou falta dele.
Além disso, sempre que possível, levamos alunos para eventos connosco. Aí percebem a realidade do terreno, como se chega a um evento, como se monta um bar, como se fala com clientes, como se reage a imprevistos e se mantém energia e simpatia durante várias horas. É uma aprendizagem muito prática e muito transformadora.
As novas possibilidades decorrentes da evolução tecnológica têm trazido benefícios para o vosso trabalho?
Sim, claramente. A tecnologia tem trazido benefícios a vários níveis, tanto na experiência que entregamos ao cliente, como na gestão interna, na comunicação, na formação e na personalização dos serviços.
Um exemplo muito visível é a possibilidade de imprimirmos imagens, logótipos ou mensagens no topo das bebidas. Hoje conseguimos literalmente colocar a marca do cliente num cocktail. Antigamente também procurávamos personalizar, mas de forma muito mais artesanal. Recortávamos moldes à mão e usávamos canela ou outros ingredientes para criar um efeito visual. Era criativo, mas limitado. Agora, com tecnologia, conseguimos fazê-lo com muito mais precisão, cor, impacto e escala.
Isto muda completamente a experiência. Num evento corporativo, por exemplo, o cliente não está apenas a beber um cocktail, está a consumir uma mensagem, uma marca, uma identidade. É uma forma muito forte de ativação.
A tecnologia também nos ajuda na gestão comercial, na relação com clientes, no acompanhamento de leads, na preparação de propostas, na formação e na análise de dados. Estamos cada vez mais atentos à forma como a inteligência artificial e a automação podem apoiar o nosso trabalho, não para substituir pessoas, mas para libertar tempo, melhorar processos e permitir que as equipas se foquem mais no que realmente acrescenta valor, a relação, a criatividade, o serviço e a experiência.
«Olho para este percurso como um enorme processo de desenvolvimento pessoal. Cresci muito enquanto empreendedora, gestora e líder. Continuo a estudar, a procurar conhecimento e a tentar ser melhor. Aprendi que liderar não é apenas exigir. É também ouvir, formar, alinhar, dar contexto e trazer as pessoas connosco.»

O que destaca nos desafios da gestão e da liderança de uma empresa como a Cocktail Team?
Liderar uma empresa como a Cocktail Team é muito desafiante porque juntamos áreas muito diferentes, desde formação ou eventos a consultoria, operação, logística, vendas, criatividade e gestão de pessoas.
A operação de eventos, por exemplo, é extremamente exigente. Há eventos que implicam muitas horas de preparação, montagem, serviço e desmontagem. Tudo tem de acontecer no momento certo e no local certo, com a equipa adequada, o melhor material e a atitude correta. Não há margem para grandes falhas, porque o evento acontece naquele dia e naquele horário.
Depois, existe a área comercial, que tem de vender, acompanhar clientes, preparar propostas, trazer negócio e garantir que há crescimento. E existe a formação, que exige rigor pedagógico, atualização permanente e acompanhamento dos alunos.
O grande desafio da liderança é alinhar tudo isto sem perder a cultura da empresa. A Cocktail Team é uma empresa criativa, dinâmica e com um ambiente muito próprio. Costumo dizer uma frase que resume bem a nossa cultura: «Brinquem no trabalho, mas não brinquem com o trabalho.»
Somos uma empresa cool, porque trabalhamos com experiências, eventos, bebidas, formação e momentos de celebração. Mas levamos o nosso trabalho muito a sério. Há muita exigência, detalhe e responsabilidade por trás de cada serviço.
Para mim, liderar a Cocktail Team é precisamente equilibrar essa energia criativa com disciplina, profissionalismo, processos e responsabilidade.
Têm atividade fora de Portugal?
Sim, temos desenvolvido atividade fora de Portugal, sobretudo na área da consultoria de bar.
Já trabalhámos em projetos internacionais muito interessantes. Em 2008, por exemplo, estivemos no Dubai, no primeiro bar suspenso do mundo. Também desenvolvemos um conceito de luxo em Moçambique e, mais recentemente, temos sido desafiados por grupos hoteleiros internacionais para apoiar a criação de cartas de bar, formação de equipas e estandardização de serviço.
Em junho estaremos na Grécia durante vários dias a trabalhar com um grupo hoteleiro que pretende implementar uma nova carta de bar, formar equipas e criar uma experiência de serviço mais diferenciada. O objetivo é que este primeiro projeto possa depois ser replicado noutras unidades do grupo.
Os desafios internacionais são vários. Temos de compreender culturas diferentes, bem como as suas equipas e distintos ritmos operacionais e distintas expectativas. Também é necessário adaptar a nossa metodologia à realidade de cada cliente e de cada país, sem perder a nossa identidade.
Mas é precisamente aí que a experiência da Cocktail Team tem valor. Levamos know-how, visão estratégica, capacidade de formação e uma grande experiência prática acumulada em Portugal e fora do país.
Que tipo de pessoas e que tipo de organizações procuram os vossos serviços?
Procuram-nos pessoas e organizações bastante diferentes, porque a área de bar está presente em muitos momentos da vida pessoal e da vida profissional.
Na formação, temos alunos que querem iniciar uma carreira, pessoas que querem mudar de vida, profissionais que já trabalham na área e querem evoluir, jovens que procuram uma profissão com empregabilidade e também pessoas que vêm de fora de Portugal para se formar connosco.
Na área dos eventos, trabalhamos com empresas de vários sectores, marcas, agências, hotéis, noivos e clientes particulares. Desde uma empresa que quer organizar uma inauguração, uma ativação de marca, uma feira, uma entrega de prémios ou uma ação de team building, até um casal que quer ter um welcome drink memorável no seu casamento.
A bebida está presente em quase todos os momentos de relação. Pode haver um evento sem refeição completa, mas dificilmente há um evento sem uma bebida de receção, um brinde, um cocktail, um café ou uma experiência de bar. A bebida é muitas vezes o primeiro gesto de hospitalidade.
As organizações que nos procuram são, normalmente, entidades que valorizam a experiência, a diferenciação e o cuidado com as pessoas. Não querem apenas servir bebidas, pretendem causar impacto e deixar uma boa memória nos presentes.
«O futuro das empresas também passa por valorizar melhor as profissões técnicas. Nem todo o talento está atrás de uma secretária. Há muito talento atrás de um balcão, numa sala de formação, num evento, numa operação logística, num hotel ou no serviço ao cliente. E quando esse talento é bem formado, liderado e valorizado, pode transformar completamente uma experiência, uma marca e até um sector.»

Como olha para a sua carreira e para o seu percurso na empresa?
A verdade é que, muitas vezes, não olho. Estou quase sempre focada no que ainda falta fazer, no que podemos melhorar, mas também na próxima oportunidade. Tenho alguma dificuldade em parar e olhar para trás. Mas quando faço esse exercício, sinto orgulho. A Cocktail Team nasceu de uma ideia que não existia no mercado português. Criámos tudo de raiz, a marca, a estratégia, a operação, a área administrativa, a área comercial, a formação, a logística, as instalações, os processos e a forma como queríamos estar no mercado.
Foi um caminho feito com muita resiliência. Nos primeiros anos, sem grandes recursos financeiros, tivemos de construir com trabalho, criatividade e persistência. Hoje, olhando para a empresa, para os alunos que formámos, para os clientes que acompanhámos e para a forma como o mercado evoluiu, sinto que deixámos uma marca.
Também olho para este percurso como um enorme processo de desenvolvimento pessoal. Cresci muito enquanto empreendedora, gestora e líder. Continuo a estudar, a procurar conhecimento e a tentar ser melhor. Aprendi que liderar não é apenas exigir. É também ouvir, formar, alinhar, dar contexto e trazer as pessoas connosco.
Espero um dia olhar para trás com mais tempo e sentir que deixei um legado bonito, também para os meus filhos. Mas, para já, continuo muito focada em fazer mais e melhor.
O que destaca como maiores sucessos na sua carreira na Cocktail Team?
Destaco vários momentos, mas talvez o nosso maior sucesso seja a consistência. Estarmos há 21 anos no mercado, numa área que praticamente não existia quando começámos, e continuarmos relevantes, reconhecidos e em crescimento, é para mim um enorme sucesso.
Naturalmente, há marcos importantes. Fomos a primeira escola de bar certificada em Portugal, ajudámos a profissionalizar a função de bartender, formámos centenas ou milhares de pessoas, trabalhámos com grandes marcas, hotéis e empresas, desenvolvemos projetos internacionais e temos hoje instalações que refletem aquilo que somos.
Os prémios e os reconhecimentos também são importantes, porque validam o trabalho e a consistência do nosso percurso, desde o Prémio Heróis PME, que distingue empresas resilientes e com impacto na economia nacional, ao reconhecimento nos Hospitality Education Awards 2022, na área da formação em hotelaria, passando também pelo Prémio Xénios da ADHP, onde fomos distinguidos como «Melhor Parceiro de Negócio», para além do Top 5% Melhores PME de Portugal. Mas o sucesso mais importante está no dia-a-dia. Está no aluno que termina a formação e encontra trabalho, num cliente que nos volta a contratar, numa avaliação positiva e num evento em que o cliente nos diz que superámos expectativas.
Como surgiu o nome da empresa?
O nome surgiu de forma muito espontânea. Inicialmente tínhamos pensado noutro, mas percebemos que já estava associado a outra área de negócio e que não fazia sentido para aquilo que queríamos construir.
Na véspera de registarmos a empresa, o Hugo estava ao telefone com o irmão, ainda num telefone fixo, e comentou que afinal não poderíamos avançar com a ideia inicial. Nessa conversa surgiu a expressão Cocktail Team. Cocktail, porque era a área onde queríamos atuar; Team, porque, no mínimo, já éramos uma equipa, eu e o Hugo.
E ficou. Foi simples, direto e verdadeiro. Representava exatamente o que queríamos ser.
Que mensagem está subjacente a esse nome?
A mensagem é precisamente essa, que um cocktail faz-se com equilíbrio, técnica, ingredientes certos e sentido de conjunto. E uma equipa também. Eu e o Hugo sempre fomos muito complementares. Ele trazia a parte técnica, o know-how de bar, a visão do produto e da profissão. Eu trazia a organização, a estratégia, a comunicação, a estrutura e a capacidade de fazer acontecer. Juntos, criámos o nosso próprio cocktail. Também gosto muito da ideia de que um cocktail tem diferentes dimensões. Pode ter doçura, acidez, amargor, intensidade, frescura e espírito. Uma empresa também. Tem momentos bons, momentos difíceis, decisões exigentes, criatividade, disciplina, pessoas diferentes e ingredientes que têm de se equilibrar.
…
Gostaria ainda de reforçar a importância de olhar para profissões técnicas com mais respeito, valorização e ambição.
Durante muitos anos, em Portugal, algumas profissões ligadas à hotelaria, ao bar, à restauração ou aos eventos foram vistas como áreas de passagem ou como alternativas menores. Nós nunca olhámos para o bar dessa forma. Sempre acreditámos que ser bartender é uma profissão com enorme impacto na experiência do cliente.
Hoje fala-se muito de talento, de retenção, de formação e de valorização das pessoas. Para nós, isso sempre esteve no centro. A Cocktail Team existe porque acreditou no talento das pessoas e na necessidade de lhes dar ferramentas, exigência, confiança e oportunidades.
Se há mensagem que gostaria de deixar é essa, o futuro das empresas também passa por valorizar melhor as profissões técnicas. Nem todo o talento está atrás de uma secretária. Há muito talento atrás de um balcão, numa sala de formação, num evento, numa operação logística, num hotel ou no serviço ao cliente.
E quando esse talento é bem formado, liderado e valorizado, pode transformar completamente uma experiência, uma marca e até um sector.
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Lúcia Encarnação
Lúcia Encarnação é cofundadora da Cocktail Team. Criou a empresa em 2005 juntamente com o marido, Hugo Silva, e tem estado ao longo de mais de duas décadas à frente de uma organização cujo negócio é predominantemente masculino. Na Cocktail Team faz um pouco de tudo, da gestão do dia-a-dia à componente comercial e de recursos humanos. Assume-se como uma gestora que gosta de pôr as mãos na massa. E os bons resultados estão bem à vista.
A Cocktail Team lidera hoje o sector de Bartending e Mixologia, Trata-se da maior Escola de Bar da Europa e de um player de primeira grandeza na organização e na promoção de eventos, bem como na consultoria junto de quem quer fazer carreira, seja em bares, seja em restauração.
