Vivemos numa era em que a tecnologia se integra de forma cada vez mais profunda na nossa vida pessoal e profissional, e em que a inteligência artificial (IA) e a automação assumem um papel relevante.
Texto: Soraia Raposo/ Rui Diniz Miquelis Imagem: Pexels
A automação consiste em utilizar a tecnologia para executar tarefas com mínima intervenção humana, aumentando a eficiência e a produtividade (e.g., Musslicka et al., 2024). Exemplos práticos incluem linhas de montagem robotizadas ou centros de atendimentos automatizados (e.g., Campilho & Silva, 2023; Shah et al. 2023).
Embora o debate sobre a relação entre humanos e máquinas remonte aos anos 80 (Hancock, 2009, citado por Zijlstra & Nyssen, 2017), o tema permanece atual. A ascensão da automação impulsionada pela IA tem ampliado exponencialmente as suas aplicações (e.g., Forni et al., 2023), trazendo novas potencialidades, mas também incertezas e inseguranças. Num mundo de avanços tecnológicos rápidos e exponenciais, acompanhar as mudanças leva-nos muitas vezes a reagir mais do que a refletir. Contudo, surgem questões que merecem uma pausa e reflexão: qual é o nosso papel? Será a automação uma ameaça ou uma oportunidade?
A resposta, dir-se-ia, depende da perspetiva. É inegável que a automação traz consigo impactos positivos e negativos. Para quem vê o seu posto de trabalho ameaçado, é natural que a automação seja percecionada como algo negativo. Para as organizações, representa uma oportunidade de otimizar recursos e resultados. Talvez a verdadeira questão seja como equilibrar esta equação, reduzindo a ameaça e maximizando a oportunidade.
O futuro é incerto, mas pode ser transformado em oportunidades sustentáveis. A integração eficaz da automação exige uma abordagem estratégica que combine comunicação, capacitação e equilíbrio.
Quando bem implementada, a automação gera ganhos significativos, como a redução de exigências físicas, maior qualidade e segurança, envolvimento em tarefas de decisão, criação de novos empregos, crescimento económico, redução de custos e inovação (Nivedha et al., 2025; OECD, 2023; Manyika, 2017; Autor, 2015; ILO, 2025). Contudo, a mudança desperta resistência, pois sabemos que somos naturalmente avessos ao que ameaça a nossa identidade individual e ao que conhecemos (Hubbart, 2023; Newman & Newman, 2018). Mesmo quando nos consideramos abertos à inovação, será que mantemos essa abertura quando está em causa o nosso próprio papel? Os receios são legítimos: estima-se que milhares de funções repetitivas ou menos especializadas venham a ser automatizadas (IPPR, 2024), embora a relação entre tecnologia e emprego permaneça complexa (Filippi et al., 2023).
Para maximizar as oportunidades e reduzir o sentido de ameaça, é essencial que as empresas integrem estratégias que promovam uma relação equilibrada entre tecnologia e pessoas (e.g., Autor, 2015). Organizações que comunicam de forma clara e envolvem os colaboradores nos processos de mudança aumentam a probabilidade de sucesso, antecipando resistências e criando confiança (Hubbart, 2023). Paralelamente, programas de requalificação – reskilling e upskilling – asseguram adaptabilidade e desenvolvimento de novas competências (Keller & Solis, 2025), pois promovem mobilidade interna e resposta a necessidades organizacionais (e.g., recorrer ao talento já existente para ocupar funções que são difíceis de recrutar externamente). Esta capacidade de reinvenção, aliada ao conhecimento das valências dos colaboradores, é determinante para equilibrar interesses individuais e empresariais. Outro aspeto crítico é definir onde automatizar e onde preservar o contacto humano. A automação tem, paradoxalmente, reforçado a importância da conexão humana. Apesar da eficiência dos sistemas automatizados, muitas pessoas continuam a valorizar interações humanas (e.g., Leshob et al., 2020), sobretudo em contextos que exigem empatia e compreensão, como no atendimento ao cliente. Slogans como “Humaniza-te” ou campanhas que destacam o “contacto humanizado” de empresas de telecomunicações refletem esta tendência (e.g., Novo posicionamento do MEO reforca a Ligacao Humana na Era Digital). Efetivamente, a literatura científica revela que, embora a automação possa personalizar serviços e aumentar o engagement, também existem riscos que podem comprometer a confiança dos clientes se não for implementada de forma responsável (Kanaparthi, 2024, citado por Nivedha et al., 2025). Ter opção de escolha sobre a forma como o serviço é conduzido também contribui para uma relação equilibrada entre tecnologia e humanidade, pois promove o sentido de autonomia e satisfação (e.g., Deci & Ryan, 2000).
O futuro é incerto, mas pode ser transformado em oportunidades sustentáveis. A integração eficaz da automação exige uma abordagem estratégica que combine comunicação, capacitação e equilíbrio. Além disso, a legislação e a regulação devem acompanhar o ritmo tecnológico, garantindo ética e responsabilidade.
Referências bibliográficas
Autor, D. H. (2015). Why are there still so many jobs? The history and future of workplace automation. Journal of economic perspectives, 29(3), 3-30.
Campilho, R. D. S. G., & Silva, F. J. G. (2023). Industrial Process Improvement by Automation and Robotics. Machines, 11(11), 1011. https://doi.org/10.3390/machines11111011
Deci, E. L., & Ryan, R. M. (2000). The “what” and “why” of goal pursuits: Human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry, 11(4), 227‑268. https://doi.org/10.1207/S15327965PLI1104_01
Filippi, E., Bannò, M., & Trento, S. (2023). Automation technologies and their impact on employment: A review, synthesis and future research agenda. Technological Forecasting and Social Change, 191, 122448.
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ILO. (2025, April 23). AI and digitalization are transforming safety and health at work [News release]. https://www.ilo.org/resource/news/ai-and-digitalization-are-transforming-safety-and-health-work
Keller, S., & Solis, N. (2025, March 13). Organizational adaptation to rapid technological change in manufacturing: The role of artificial intelligence. Global Business & Economics Journal. https://gbej.org/articles/organizational-adaptation-to-rapid-technological-change-in-manufacturing-the-role-of-artificial-intelligence/
Leshob, A., Bédard, M., & Mili, H. (2020). Robotic Process Automation and Business Rules: A Perfect Match. In ICETE (3) (pp. 119-126).
Musslick, S., Bartlett, L.K., Chandramouli, S.H., Dubova, M., Gobet, F., Griffiths, T.L., Hullman, J., King, R.D., Kutz, J.N., Lucas, C.G., Mahesh, S., Pestilli, F., Sloman, S.J. & Holmes, W.R. (2025). Automating the practice of science: Opportunities, challenges, and implications. Proceedings of the National Academy of Sciences, 122(5), e2401238121.
Newman, B. & Newman, P. (Eds) (2018). Later adulthood (60 to 75 years). In Newman, B. & Newman, P. (Eds.), Development Through Life: A Psychosocial Approach (12th ed) (pp.527-563). Cengage Learning
Nivedha, V., Thomas, T. C., Thote, K. P., Mohapatro, D., & Akhter, M. T. (2025). AI in FinTech: Redefining customer trust and personalization in digital finance. Advances in Consumer Research, 2(5), 153‑160. https://www.acr-journal.com/article/ai-in-fintech-redefining-customer-trust-and-personalization-in-digital-finance-1669/
OECD. (2023). OECD Employment Outlook 2023: Artificial Intelligence and the Labour Market. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/08785bba‑en
Shah, S., Ghomeshi, H., Vakaj, E., Cooper, E., & Fouad, S. (2023). A review of natural language processing in contact centre automation. Pattern Analysis and Applications, 26(3), 823-846.
Zijlstra, F. R., & Nyssen, A. S. (2017). How Do We Handle Computer-Based Technology? 20 1 What Is the Cost/Benefit Ratio of Technology for Workers?. An introduction to work and organizational psychology: An international perspective, 373.

Soraia Raposo, Consultant da SHL Portugal

Rui Diniz Miquelis, Senior Associate da Vieira de Almeida (VdA)
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