A fragilidade dos trabalhadores é um problema de gestão

Texto: Isabel Mendes Imagem: DR

As respostas são frequentemente conhecidas. Fala-se de legislação laboral, de custos do trabalho, de flexibilidade, de qualificações ou de inovação tecnológica. Todos estes fatores têm importância. No entanto, existe uma variável decisiva que continua a receber menos atenção do que merece: a qualidade da gestão.

Durante anos, o debate económico foi marcado pela ideia de que organizações mais competitivas exigem relações laborais mais flexíveis. A premissa parece lógica. Quanto maior a capacidade de adaptação das empresas, maior a sua eficiência. Mas esta visão ignora uma realidade que qualquer profissional de recursos humanos conhece bem: a produtividade não resulta apenas da capacidade de exigir mais às pessoas. Resulta, sobretudo, da capacidade de criar condições para que as pessoas possam dar o seu melhor.

A história das organizações demonstra que a competitividade sustentável raramente nasce da fragilização dos trabalhadores. Nasce da inovação, da qualidade das lideranças, da organização eficiente do trabalho, da formação contínua e da confiança.

Apesar disso, persistem modelos de gestão assentes na pressão permanente, na disponibilidade constante e numa cultura onde o medo de falhar ou de perder oportunidades profissionais se transforma num mecanismo silencioso de controlo. Em muitos contextos, a flexibilidade tornou-se uma exigência dirigida quase exclusivamente aos trabalhadores, enquanto as organizações mantêm dificuldades em adaptar-se às necessidades das suas pessoas.

O resultado é visível. Crescem os relatos de exaustão emocional, ansiedade, burnout, conflitos interpessoais e sentimentos de desvalorização. Multiplicam-se os programas de bem-estar, as ações de sensibilização e as iniciativas de promoção da saúde mental. Tudo isso é positivo. Contudo, continua a existir uma tendência para abordar estes fenómenos como problemas individuais, quando muitas vezes têm origem em fatores organizacionais.

Enquanto médica do trabalho, aprendi que os indicadores de saúde dos trabalhadores funcionam frequentemente como indicadores da qualidade da gestão. Quando uma organização apresenta níveis elevados de sofrimento psicológico, absentismo, presentismo, rotatividade ou conflito interno, a questão dificilmente se esgota na capacidade individual de adaptação dos seus profissionais.

A saúde dos trabalhadores é também um reflexo da forma como o trabalho é organizado, da qualidade das lideranças, da clareza dos objetivos, da justiça percebida e do espaço que existe para a participação e para o diálogo.

Por isso, talvez seja tempo de questionar uma ideia profundamente enraizada em muitos discursos sobre produtividade: a de que os problemas das organizações resultam sobretudo de limitações dos trabalhadores.

Na realidade, os trabalhadores portugueses têm demonstrado uma enorme capacidade de adaptação. Adaptaram-se a crises económicas, a processos de reestruturação, à transformação digital, ao teletrabalho, à inteligência artificial (IA) e a modelos de trabalho em constante mudança. O desafio atual parece residir menos na capacidade de adaptação das pessoas e mais na capacidade das organizações para criar ambientes de trabalho saudáveis, sustentáveis e geradores de compromisso.

As empresas mais bem-sucedidas compreenderam algo que a investigação confirma há muito tempo: a confiança gera melhores resultados do que o medo. A participação gera mais compromisso do que o controlo excessivo. E a valorização das pessoas produz mais inovação do que a sua fragilização.

Num contexto marcado pela escassez de talento, pelo envelhecimento da população ativa e pelo aumento das preocupações relacionadas com a saúde mental, a verdadeira questão já não é apenas como aumentar a produtividade. A questão é saber que tipo de organizações queremos construir.

Porque a produtividade não é apenas um indicador económico. É também um reflexo da cultura organizacional, da qualidade da gestão e do valor que atribuímos às pessoas.

E quando os trabalhadores se tornam cada vez mais frágeis, talvez o problema não esteja apenas nos trabalhadores. Talvez esteja na forma como escolhemos gerir o trabalho.




Isabel Mendes


Isabel Mendes é médica do trabalho e gestora de serviços de saúde.

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