IA na gestão de talento

Personalização, feedback e desenvolvimento de novos líderes

Texto: Catarina Rego/ Paulo Leitão Imagem: Freepik

No entanto, se ser líder pela primeira vez raramente vem com um manual de instruções, o advento da inteligência artificial (IA) poderá implicar que os novos líderes passam a ser dotados de um importante copiloto.

Para muitos, esta transição é acompanhada por sentimentos de insegurança e pressão acrescida, frequentemente associados à necessidade de provar competência num novo papel. Neste contexto, o acesso a ferramentas que agilizem a organização e leitura de dados pode potenciar uma adaptação mais segura e eficaz.

Não se trata da tecnologia substituir a liderança, mas sim de acelerar a aprendizagem de quem ainda a está a construir. Mais do que um simples apoio à tomada de decisão, a capacidade da IA para ajudar os gestores de equipas a consolidar e cruzar perspetivas provenientes de diferentes stakeholders (líderes, pares, subordinados e de autoavaliações), e transformá-las numa mensagem clara, equilibrada e construtiva, atua como ferramenta de desenvolvimento do próprio líder. Neste contexto, permite reduzir a carga cognitiva inicial e, criar espaço para a reflexão, a empatia, e uma tomada de decisão mais consciente e ponderada.

Adicionalmente, ao apoiar a preparação e a estruturação de conversas de feedback de maior qualidade, baseando-as em evidências concretas, o copiloto de IA permite ao novo líder orientar estas conversas com maior segurança e intencionalidade, acelerando a construção de confiança na sua posição, e promovendo uma aprendizagem mais rápida e consistente com cada ciclo de feedback.

Por último, e ainda neste contexto, a IA pode também assumir um papel determinante na estruturação de planos de desenvolvimento individuais (PDIs) mais robustos e estrategicamente alinhados. Baseando-se em dados históricos e nos padrões organizacionais passados, a IA permite a identificação de métricas de desempenho relevantes, capazes de apoiar o novo líder na definição de prioridades claras, realistas e mensuráveis para cada elemento da equipa, reduzindo a subjetividade frequentemente associada a estes processos.

Para além de apoiar a definição inicial dos PDIs, a IA pode desempenhar um papel decisivo na sua personalização contínua e na capacitação do próprio líder enquanto facilitador do desenvolvimento. Ao analisar dados em tempo real sobre o progresso, o envolvimento e as preferências de aprendizagem individuais, a IA permite ajustar os PDIs de forma dinâmica, garantindo que permanecem relevantes, motivadores e alinhados com os objetivos individuais e organizacionais. Este acompanhamento inteligente não só reforça a eficácia dos planos, como oferece ao líder insights valiosos sobre o impacto das suas decisões de desenvolvimento. Ao receber alertas sobre obstáculos, oportunidades emergentes ou mudanças no desempenho da equipa, o líder é convidado a refletir, adaptar e evoluir na sua própria prática, tornando-se, ele próprio, parte ativa de um ciclo de aprendizagem contínua. Desta forma, a IA não apenas apoia o crescimento dos colaboradores, mas também acelera a maturação do novo líder enquanto agente de desenvolvimento humano.

Complementando a fase de conceção, a IA pode também apoiar a execução dos PDIs através da automatização de tarefas operacionais que facilitam o acompanhamento do processo. Entre estas, destaca-se a sinalização de datas-chave para conversas 1:1 previamente acordadas, a sugestão de momentos oportunos para feedback através de pequenos inquéritos, e a centralização da informação relevante num único ponto de acesso. Este tipo de suporte contribui para uma maior consistência e continuidade no acompanhamento dos planos, permitindo ao líder manter o foco no desenvolvimento dos seus colaboradores sem perder visibilidade sobre o progresso e os compromissos assumidos ao longo do tempo.

Em paralelo, e focando-nos agora na perspetiva individual, ao integrar os diferentes estilos e ritmos de aprendizagem, a IA potencia a capacidade para ajustar tais planos de desenvolvimento às motivações, competências e potencial latente de cada pessoa, permitindo desenhar percursos de desenvolvimento altamente personalizados, sem perder de vista os objetivos mais amplos da organização.

Apesar do potencial transformador, a utilização da IA em contextos de gestão de pessoas levanta riscos concretos que exigem atenção. Por um lado, existe a possibilidade de que os algoritmos reproduzam ou amplifiquem preconceitos existentes nos dados históricos, perpetuando desigualdades. Por outro, a falta de transparência nos critérios de funcionamento dos sistemas, muitas vezes descritos como «caixas negras», dificulta a compreensão e validação da informação gerada. Acrescem, ainda, preocupações legítimas com a privacidade e segurança dos dados, uma vez que estas tecnologias operam com informação sensível sobre desempenho, comportamento e potencial individual. Assim, para que a IA funcione como um verdadeiro copiloto e não como um substituto do julgamento humano, é essencial garantir a transparência dos critérios utilizados, a explicabilidade das recomendações geradas e a supervisão ativa por parte dos líderes. Só assim será possível assegurar que a tecnologia reforça (e não compromete) a confiança, a equidade e a qualidade das decisões, promovendo uma liderança mais consciente, inclusiva e coerente com os valores da organização.

Neste sentido, torna-se igualmente relevante investir na capacitação dos líderes para que desenvolvam competências de literacia digital e ética, permitindo-lhes interpretar os resultados da IA com espírito crítico e assegurar a sua aplicação de forma justa e alinhada com a cultura e os valores da organização.

Em suma, a integração da IA no desenvolvimento de novos líderes representa menos uma mudança de paradigma na liderança e mais uma evolução na forma como é aprendida e exercida. Ao funcionar como um mecanismo de coerência e alinhamento, a IA não substitui o julgamento humano, mas amplifica a capacidade do líder para aprender mais rapidamente, liderar com maior confiança e transformar intenções de desenvolvimento em planos acionáveis, consistentes e orientados para resultados sustentáveis.



Catarina Rego
, Senior Consultant da SHL Portugal





Paulo Leitão
, Director of Specialized Recruitment do Clan


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