Há uma ideia elementar na Medicina do Trabalho: o trabalho deve adaptar-se ao trabalhador, e não o trabalhador adaptar-se ao trabalho a qualquer preço. Parece evidente. Mas a organização contemporânea do trabalho muitas vezes esquece-o.
Texto: Isabel Mendes Imagem: DR
Nas organizações fala-se de produtividade, flexibilidade, inovação e capacidade de adaptação, mas espera-se frequentemente que seja o trabalhador a adaptar-se aos ritmos, às metas, à pressão e à disponibilidade permanente.
Quando adoece, a pergunta tende a inverter-se: «Será que ainda é capaz de responder às exigências do trabalho?»
O conceito de «apto condicionado» mostra bem a diferença. Não significa que o trabalhador esteja inapto. Significa que pode trabalhar, desde que sejam respeitadas determinadas condições destinadas a proteger a sua saúde.
Perante uma limitação funcional, não deveríamos perguntar apenas o que falta ao trabalhador. Deveríamos perguntar o que pode ser modificado no trabalho para que possa continuar a trabalhar em segurança.
É também aqui que entram os riscos psicossociais: stress, sobrecarga, falta de autonomia, objetivos irrealistas, ritmos excessivos, conflitos, assédio ou ausência de reconhecimento. Não são necessariamente problemas individuais. Podem resultar da própria organização do trabalho.
Apesar disso, estes riscos continuam muitas vezes subavaliados. É mais fácil medir o ruído, a iluminação ou uma exposição química do que medir a pressão permanente, a insegurança, a falta de controlo ou a impossibilidade de desligar do trabalho. Mas aquilo que é difícil de medir não deixa de existir.
O burnout é um exemplo revelador. O facto de não constar autonomamente da lista portuguesa de doenças profissionais não significa que uma doença relacionada com o trabalho não possa ser reconhecida como profissional. A questão passa pela demonstração da relação causal com a atividade profissional.
Mas como demonstrar essa relação quando a própria organização não avalia adequadamente os fatores de trabalho que podem contribuir para o adoecimento?
A pessoa adoece. E, por vezes, é a própria pessoa que passa a ser vista como incompatível com a organização.
É aqui que começa a desumanização do trabalho.
Uma organização socialmente responsável deveria perguntar se as exigências são razoáveis, se podem ser modificadas e se a organização do trabalho tem em conta a realidade humana de quem o executa.
O verdadeiro progresso não será extrair cada vez mais produtividade de pessoas cada vez mais pressionadas. Será organizar o trabalho de forma que as pessoas possam trabalhar sem perder a saúde, a dignidade e a possibilidade de continuarem a ser pessoas dentro do trabalho.
O corpo humano não é uma máquina de produção. Tem limites, adoece, envelhece e atravessa períodos de fragilidade. A saúde mental não é exceção.
Por isso, a Medicina do Trabalho não deve limitar-se a preencher fichas de aptidão. O médico do trabalho deve conhecer o trabalho real, os seus riscos, ritmos e exigências, e compreender a relação entre estes fatores e a saúde dos trabalhadores.
Quando escreve «apto condicionado», está também a dizer à organização: «Este trabalhador pode trabalhar, mas o trabalho precisa de respeitar determinados limites.»
A resposta não deveria ser: «Então este trabalhador já não serve.»
Deveria ser: «O que precisamos de mudar na organização do trabalho para que possa continuar a trabalhar?»
Adaptar o trabalho não é um favor. É reconhecer que o trabalho deve ser organizado de acordo com as características e os limites humanos.
Talvez, por isso, devêssemos substituir a pergunta:
«Este trabalhador ainda é capaz de desempenhar este trabalho?»
Substituí-la por outra:
«Que trabalho estamos a construir quando uma pessoa deixa de caber nele apenas porque adoeceu?»
O verdadeiro progresso não será extrair cada vez mais produtividade de pessoas cada vez mais pressionadas. Será organizar o trabalho de forma que as pessoas possam trabalhar sem perder a saúde, a dignidade e a possibilidade de continuarem a ser pessoas dentro do trabalho.
Quando o trabalho deixa de se adaptar às pessoas, talvez não sejam as pessoas que estejam a falhar. Talvez seja o próprio trabalho que tenha deixado de ser humano.

Isabel Mendes
Isabel Mendes é médica do trabalho e gestora de serviços de saúde.
