Cuidar das chefias intermédias é um desafio estratégico. Não basta prepará-las para gerir melhor as equipas. Escutar, envolver ou desenvolver pessoas exige tempo, disponibilidade e espaço para pensar.
Texto: Ana Honrado Imagem: DR
As organizações atravessam transformações sucessivas e tudo indica que a mudança continuará a marcar a natureza do trabalho nos próximos anos.
A inteligência artificial (IA) e a automação são duas das forças dessa transformação, a par de reestruturações, mudanças nos modelos de trabalho, novas exigências de desempenho e períodos prolongados de incerteza. No centro de muitas destas mudanças estão as chefias intermédias.
São elas que traduzem a estratégia em prioridades, explicam decisões e ajudam as equipas a adaptar-se, mantendo a responsabilidade pelos resultados. Muitas vezes, ainda estão a compreender uma decisão quando já precisam de a explicar à equipa, gerindo dúvidas, resistências e incertezas.
O desgaste acumulado nem sempre dá sinais evidentes. Muito antes do burnout, pode já manifestar-se silenciosamente na própria pessoa e na forma como lidera. A sobrecarga continuada pode provocar ansiedade, desgaste emocional e menor capacidade de adaptação. Quando os recursos e a disponibilidade diminuem, torna-se mais difícil parar para refletir, escutar, envolver ou desenvolver pessoas.
É precisamente aqui que existe um risco menos visível. A chefia continua a trabalhar e pode até continuar a entregar resultados, mas a urgência ocupa o espaço da reflexão, aumenta a reatividade, resolver substitui desenvolver e as decisões podem tornar-se mais centralizadas. Nem sempre estes sinais são reconhecidos como desgaste pela organização ou pela própria pessoa, porque aparentemente a função continua a ser cumprida.
Quando esta erosão assume a forma de liderança, deixa de ser apenas um problema individual. Pode refletir-se na qualidade das decisões e das relações, na confiança e no desenvolvimento das equipas, e comprometer a capacidade da organização de executar a mudança.
Cuidar de quem lidera passa pela qualidade da liderança que estas chefias recebem, pelos espaços de suporte que encontram e pelas condições que a organização cria.
Cuidar das chefias intermédias é, por isso, um desafio estratégico.
Não basta preparar estas chefias para gerir melhor as equipas. Escutar, envolver ou desenvolver pessoas exige tempo, disponibilidade e espaço para pensar. Desenvolver a capacidade individual é insuficiente se as condições em que a liderança é exercida dificultam a sua utilização.
A primeira resposta começa na gestão de topo. Liderar quem lidera não é apenas acompanhar os resultados; é olhar para a pessoa que está por detrás deles. É estar atento a alterações que nem sempre chegam sob a forma de um pedido de ajuda, criar espaço para perguntar e ouvir, dar contexto, ajudar a priorizar e permitir que uma dificuldade seja partilhada sem ser interpretada como incapacidade de liderar.
Esta atenção não substitui respostas estruturais. Coaching, mentoring, supervisão ou redes de pares podem criar espaços de reflexão e suporte, mas também é necessário olhar para a carga de trabalho, a autonomia e as prioridades. Se a pressão é estrutural, a resposta não pode ser pontual nem surgir apenas quando o desgaste já é visível.
Cuidar de quem lidera passa pela qualidade da liderança que estas chefias recebem, pelos espaços de suporte que encontram e pelas condições que a organização cria. Significa, antes de mais, não permitir que o foco nos resultados nos faça perder de vista a pessoa que os torna possíveis. Ouvir mais, estar atento aos primeiros sinais de desgaste e compreender aquilo de que cada pessoa precisa é também cuidar da sua capacidade para continuar a liderar bem. E, ao fazê-lo, estamos igualmente a proteger a capacidade da organização para se adaptar, mobilizar e executar.

Ana Honrado, Learning & Development Senior Consultant na Cegoc (presença no LinkedIn aqui)

A Cegoc, fundada em dezembro de 1962, integra o prestigiado Grupo internacional Cegos. Com posição de destaque em soluções de Learning & Development, People & Culture Consulting e Learning Services, está na vanguarda da transformação do desenvolvimento de pessoas nas organizações. Desenvolve soluções que transformam conhecimento em ação, assegurando um impacto significativo e mensurável nos negócios dos clientes e contribuindo para a realização de transformações críticas nas suas equipas e organizações.
