Num mundo em que a inteligência artificial (IA) torna o conhecimento cada vez mais acessível, a mentoria ganha uma relevância ainda maior. Porque oferece aquilo que nenhuma tecnologia consegue garantir por si só: o acesso, a confiança, as referências e as relações humanas capazes de mudar uma trajetória.
Texto: Mariana Victorino Imagem: Pexels/ Ivan S
Vivemos numa época extraordinária em que nunca foi tão fácil aprender uma nova competência. Com poucos cliques, qualquer pessoa pode aprofundar um tema, melhorar um currículo, preparar uma entrevista ou desenhar um plano de carreira com o apoio da IA.
A IA democratizou o acesso ao conhecimento, mas continua a existir um recurso profundamente desigual: o acesso às oportunidades. É precisamente aí que a mentoria faz a diferença.
Durante muito tempo pensámos que o conhecimento era o maior fator de diferenciação no mercado de trabalho. Hoje sabemos que o conhecimento, por si, já não chega. A diferença entre duas pessoas igualmente talentosas está, muitas vezes, em quem lhes abre uma porta, quem lhes apresenta uma oportunidade, quem lhes dá confiança para arriscar ou simplesmente quem acredita nelas antes de elas próprias o fazerem.
Nos últimos meses, tive a oportunidade de acompanhar, através do programa da Global Mentorship Initiative, uma jovem engenheira química da Bolívia. Vive numa região remota do país e sonha construir uma carreira internacional, incluindo a possibilidade de trabalhar na Europa. À primeira vista, poderíamos pensar que o meu papel passava apenas por rever o seu currículo, ajudá-la a preparar entrevistas ou aconselhá-la sobre os próximos passos profissionais. Na realidade, a experiência foi muito mais rica do que isso. As nossas conversas confirmaram, constantemente, uma ideia que se tornou uma convicção pessoal: o talento está distribuído de forma muito mais equilibrada do que as oportunidades.
Quando falamos de networking, acesso a empresas internacionais ou exposição a diferentes mercados, percebemos rapidamente que aquilo que muitos profissionais consideram natural continua a representar um enorme obstáculo para milhões de pessoas. Não por falta de capacidade, mas por falta de acesso.
A mentoria ajuda precisamente a reduzir essa distância ao ajudar a transformar uma ambição distante num plano concreto, com um contexto, referências e confiança. Isso vai permite que alguém passe a visualizar caminhos que antes pareciam inacessíveis. Assim, todos concordamos que a IA democratiza o conhecimento, mas acredito firmemente que a mentoria democratiza as oportunidades.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a mentoria também transforma profundamente quem assume o papel de mentor. Cada conversa obriga o mentor a revisitar o seu próprio percurso, a refletir sobre as oportunidades que teve e, sobretudo, sobre as pessoas que marcaram momentos decisivos da sua carreira.
Na Foundever.org trabalhamos diariamente para criar oportunidades de empregabilidade em diferentes países e contextos sociais. Essa experiência reforça a convicção muito simples de que o talento é universal, mas as oportunidades continuam a não ser.
No meu caso, nunca tive um mentor formal, mas tive vários líderes, professores, colegas e amigos que confiaram em mim, desafiaram a minha forma de pensar, abriram-me portas e incentivaram-me a assumir responsabilidades para as quais talvez ainda não me sentisse totalmente preparada.
Hoje percebo que grande parte do nosso crescimento profissional acontece precisamente porque alguém investiu tempo em nós e talvez seja por isso que vejo a mentoria como uma forma de devolver essa oportunidade.
Ao longo dos anos, tive igualmente o privilégio de acompanhar estudantes universitários e profissionais em diferentes fases das suas carreiras e em todas essas experiências encontrei algo em comum: aprendi tanto quanto ensinei.
Os mentorados desafiam-nos a sair da nossa própria realidade e trazem novas perspetivas, diferentes referências culturais, outras formas de resolver problemas e uma enorme capacidade de adaptação. Em resultado disso e neste mundo em permanente transformação em que vivemos, essa aprendizagem torna-nos também melhores líderes.
Falamos muito sobre IA, automação e transformação digital que são, obviamente, indispensáveis, mas existe uma competência que se tornará cada vez mais diferenciadora que é a capacidade de desenvolver outras pessoas.
Para mim, os melhores líderes não são apenas aqueles que entregam resultados e sim aqueles que (também) fazem crescer talento, dentro e fora das suas organizações.
Na Foundever.org trabalhamos diariamente para criar oportunidades de empregabilidade em diferentes países e contextos sociais. Essa experiência reforça a convicção muito simples de que o talento é universal, mas as oportunidades continuam a não ser.
Num mundo em que a IA torna o conhecimento cada vez mais acessível, a mentoria ganha uma relevância ainda maior. Porque oferece aquilo que nenhuma tecnologia consegue garantir por si só: o acesso, a confiança, as referências e as relações humanas capazes de mudar uma trajetória.
A tecnologia acelera a aprendizagem, mas continua incapaz de fazer aquilo que verdadeiramente transforma uma carreira: acreditar numa pessoa antes de ela própria acreditar em si.

Mariana Victorino, Global Operational Director da Foundever.org (presença no LinkedIn aqui)

A Foundever.org é a fundação corporativa da Foundever, empresa com posição de destaque global em gestão de experiência do cliente (CX). Esta organização sem fins lucrativos foca-se na transformação social através de três pilares principais: educação, inclusão e empregabilidade.
A Foundever tem apostado em serviços de nova geração, reinventando a CX. Os seus cerca 130.000 colaboradores, distribuídos por mais de 45 países, estabelecem parcerias com marcas líderes para fornecer soluções integradas de CX, operações digitais e soluções de dados. Anualmente, a empresa potencia 3,3 mil milhões de conversas em mais de 60 idiomas para ajudar mais de 800 das principais marcas do mundo a cumprirem a sua promessa nos momentos mais importantes.
