Não voltes das férias para o mesmo lugar

Texto: Cristina Nogueira da Fonseca Imagem: DR

Ao fim de uns dias de férias, voltamos a rir com mais facilidade, dormimos melhor, pensamos com mais clareza e começamos a sentir que talvez já estejamos bem outra vez.

Mas depois regressamos e regressamos ao mesmo volume de trabalho, às mesmas urgências, às mesmas reuniões, à mesma dificuldade em dizer que não, à mesma cultura e, muitas vezes, à mesma forma de trabalhar que nos levou ao limite.

E, ao fim de dois ou três dias, já estamos outra vez cansados, não porque as férias não tenham servido. Serviram, mas serviram para descansar de um problema que continuou exatamente no mesmo lugar, à nossa espera.

E é isto que importa perceber quando falamos de burnout: as férias não resolvem.

Porque as férias não resolvem uma carga de trabalho sempre excessiva, uma liderança que não escuta, a falta de autonomia, a injustiça, a ausência de reconhecimento ou uma cultura em que estar sempre disponível é confundido com compromisso.

Durante muito tempo, fomos aprendendo a adiar o descanso para o fim-de-semana, para o feriado, para as férias; aprendemos a viver a contar os dias até podermos parar.

Está na hora de nos perguntarmos que trabalho é este de que precisamos de fugir para voltar a respirar, porque as férias não podem ser o momento do ano em que juntamos energia suficiente para voltar a suportar aquilo que nos está a adoecer.

Precisamos de conseguir descansar ao longo do ano, de pausas, de limites, de poder pedir ajuda sem medo, de trabalhar em lugares onde a exaustão não seja tratada como uma inevitabilidade.

Para quem está em burnout, as férias podem trazer uma coisa importante: silêncio.

E, nesse silêncio, talvez seja possível ver o que a velocidade não deixa ver, perceber que já não estamos bem, que perdemos energia, entusiasmo, paciência e partes de nós pelo caminho.

Mas perceber não é suficiente para recuperar: a recuperação pode exigir ajuda profissional, mudanças reais, prioridades redefinidas, conversas difíceis e, muitas vezes, uma alteração profunda na forma como trabalhamos e vivemos.

Por isso, quando regressarmos de férias, a pergunta que importa é: o que precisamos de mudar para não voltar ao mesmo lugar?

Porque as férias são importantes, mas não tornam sustentável aquilo que nunca foi.

Que as férias nos devolvam silêncio, mas que o regresso nos traga coragem.





Cristina Nogueira da Fonseca
, Executive Director da Happytown Portugal (presença no LinkedIn aqui)


Happytown Portugal, fundada em 2016, é a primeira consultora portuguesa dedicada em exclusivo à felicidade e ao bem-estar nas organizações. Em 2025 continua com a missão de criar relações de confiança com os seus clientes, promovendo competências e edificando estratégias para o fortalecimento das pessoas e dos seus negócios.

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