Nelson Ferreira Pires, da Jaba Recordati

«Temos um desafio gigante, pela nossa atividade.»

Líder da farmacêutica Jaba Recordati para o mercado português, onde é diretor geral, mas também para o Reino Unido e a Irlanda, bem como alguns países em África, Nelson Ferreira Pires mostra como implementaram o trabalho remoto na empresa e perspetiva o futuro. Fala de «um desafio gigante», por terem «uma atividade considerada essencial neste período, já que sem medicamentos não se salva vidas».

Texto: Redação Human  Foto: VG

 

O que pode dizer-nos sobre a experiência de trabalho remoto na Jaba Recordati?

Ninguém antecipou que o que está acontecer fosse possível. Portanto, a nossa indústria e a minha companhia nela incluída não estávamos preparados para trabalhar desta forma. Mais ainda quando a nossa latinidade torna esse um fator limitativo. No imediato, sendo uma situação excecional e grave, entrou em funções o comité de gestão de crise pronto para tomar medidas, em conjunto com os nossos headquarters em Milão.

 

O que fizeram então?

Implementámos no início do mês de março um plano de contingência baseado nas recomendações da Direção Geral da Saúde [DGS] e da Recordati Group. Neste momento, estamos na fase C do plano, ou seja, temos quase toda a equipa a trabalhar de forma remota e a seguir de forma escrupulosa as instruções das autoridades sanitárias. Por outro lado, temos um desafio gigante pois a nossa atividade é considerada essencial neste período, já que sem medicamentos não se salva vidas.

 

O processo está a correr bem?

Sim. Ou seja, estamos a adaptar-nos rapidamente a esta nova forma de trabalho para a qual fomos empurrados, mas temos uma cultura de resiliência como companhia. E esta adaptação não se verifica apenas na nossa equipa comercial, mas também na nossa área de recursos humanos, e na de marketing, na financeira, na área médica e regulamentar, em farmacovigilância, apoio administrativo e todas os outros departamentos.

 

Como foi a implementação do teletrabalho?

Em situações normais temos 80% dos nossos colaboradores a trabalhar fora dos nossos headquarters. Estes mesmos agora não podem pessoalmente contactar os técnicos de saúde. Estamos a lançar dois produtos novos que deveriam ter regularidade de informação (visita médica), mas não têm. No entanto, no nosso ADN corporativo estão dois elementos fundamentais para superar os momentos de crise: as pessoas são o mais importante fator da nossa organização e tentamos sempre converter uma dificuldade numa oportunidade, com o respeito pela gravidade da crise que estamos a passar. Somos uma organização resiliente, que se adapta. Portanto, implementámos soluções rápidas que agora estamos a aperfeiçoar. Sendo que uma delas foi um pequeno treino de gestão de tempo a todos os colaboradores, de forma a otimizarem e conciliarem o trabalho em casa com as interrupções normais familiares. Temos diversas vantagens…

 

Quais?

Assinalo cinco: todos os nossos colaboradores já detinham ferramentas de trabalho (PC + telefone móvel da companhia + e-detailing) que lhes permitem realizar o trabalho remoto; temos um sistema de Intranet bastante completo; utilizamos o SAP como ferramenta base de gestão e uma ferramenta de CRM [customer relationship management] é bastante útil; a nossa base dados com respeito pelas normas de RGPD é bastante considerável (mais de 8.000 contactos); temos inúmeros conteúdos de interesse elevado que interessam aos técnicos de saúde bem como para formação interna.

 

Em suma, otimizámos as ferramentas de comunicação e formação interna (grupos de Whatsapp, e-mail, newsletter interna regular e Intranet para reforçar a proximidade dos colaboradores da companhia) e desenvolvemos ferramentas de comunicação com os nossos técnicos de saúde e stakeholders (e-mail, telefone mas também webinar e podcasts, bem como ferramentas de e-detailing e marketing digital). A título de exemplo, o nosso sistema de atendimento telefónico da receção do escritório pode ser feito de forma remota pela nossa colaboradora, que se necessário reencaminha as chamadas para os telemóveis dos colaboradores. Portanto, foi mais um trabalho de integração das ferramentas disponíveis e criar uma cultura distinta da existente previamente: contacto remoto, mas sempre com um toque humano e personalizado.

 

Aprendemos que no futuro não podemos voltar ao modo como trabalhámos antes, mas certamente integrar o trabalho remoto com o trabalho presencial.

 

Quantos colaboradores estão envolvidos?

Temos neste momento em permanência de forma remota 127 colaboradores e na sede no Tagus Park cinco colaboradores. Portanto, mantemos rotatividade de funções e responsabilidades presenciais na sede no Tagus Park, bem como comunicação permanente entre todos os colaboradores e os nossos parceiros (logísticos, clientes, autoridades, técnicos de saúde, etc), essencialmente de forma remota e pontualmente de forma presencial.

 

Que reações tem havido por parte dos colaboradores?

São positivas, porque todos entendem que este novo modelo de trabalho para o qual fomos arrastados faz parte do futuro e deve ser integrado com o modelo anterior. Por outro lado, temos mais tempo, pois as deslocações que nos ocupavam muito do tempo de trabalho desapareceram. Também reduzimos a nossa pegada ecológica, e esse é um assunto importante para nós. Aliás, a título pessoal eu já vivia esta experiência no dia-a-dia, pois sou diretor geral do mercado português, mas também para o Reino Unido e a Irlanda, bem como alguns países em África. Ou seja, muito da minha atividade já se faz de forma remota.

 

Está de alguma forma a ser preparada a retoma da atividade normal?

Temos definidos dois planos de ação que dependem muito da evolução da pandemia. Se for mais curta (como todos desejamos, a bem do país) ou mais longa. Aprendemos que no futuro não podemos voltar ao modo como trabalhámos antes, mas certamente integrar o trabalho remoto com o trabalho presencial. Por exemplo, na organização das nossas reuniões comerciais poderemos começar a intercalar reuniões presenciais com reuniões remotas. Ou seja, temos já definidos os planos de retoma da atividade normal, considerando os dois cenários (no meio deste cenário muito mau para as comunidades e para os cidadãos) anteriormente definidos.

 

Toda esta situação suscita-lhe alguma reflexão para o futuro?

No médio e no longo prazos, a pandemia do corona-vírus é um teste à cidadania: entre o totalitarismo (exemplo chinês, que colocou um chip em cada cidadão para controlar a epidemia) ou o empowerment dos cidadãos (exemplo sul coreano), o isolamento dos países (exemplo dos Estados Unidos e da Rússia) ou a solidariedade global (exemplo europeu). Mas é também um teste à capacidade de adaptação social das comunidades, das organizações, dos cidadãos e dos trabalhadores. Iremos certamente assistir a uma mudança radical na forma como trabalhamos em todos os sectores, mas certamente na indústria farmacêutica. Existirão muitas mudanças que irão moldar o nosso futuro, como cidadãos e profissionais. O desejo maior é que ultrapassemos este período crítico em que a humanidade está a viver uma crise global. Sabemos que a tempestade vai passar, que a humanidade vai sobreviver, mas num mundo diferente. Não podemos é perder o contexto essencial, como alguém disse: «Este vírus é obviamente um enorme desafio: médico, político e – talvez mais importante – social e económico. Mas vale a pena lembrar que o mundo nunca teve melhores ferramentas para combatê-lo.»

 

 

»»» Nelson Ferreira Pires é diretor geral da Jaba Recordati, subsidiária portuguesa da multinacional farmacêutica Recordati SPA. Está presente na vida dos Portugueses desde 1927 e tem como missão «proporcionar mais e melhor vida». Os fatores distintivos que apresenta são a inovação de produto e organizacional, aliada a um forte rigor ético e científico, bem como económico e financeiro; isto reforçado pelo compromisso estratégico de acrescentar mais e melhor saúde a todos os portugueses (médicos, farmacêuticos, enfermeiros, doentes e outros stakeholders da saúde). Este conjunto de fatores fazem da empresa um exemplo único de sucesso no panorama da indústria farmacêutica nacional, estando presente nos vários segmentos do medicamento, com produtos inovadores e de marca, produtos genéricos, produtos OTC (não sujeitos a receita médica) e dispositivos médicos.

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