Uma reflexão sobre organização do trabalho, poder e saúde dos professores.
Texto: Isabel Mendes Imagem: DR
Fala-se frequentemente do cansaço dos professores. Fala-se menos das condições de trabalho que podem estar na origem desse cansaço.
Esta diferença não é meramente semântica. É uma diferença de perspetiva.
Quando um trabalhador adoece, a medicina do trabalho não deveria perguntar apenas: «O que tem esta pessoa?» Deveria perguntar também: «O que está a acontecer neste trabalho?»
No caso dos professores, esta pergunta tornou-se particularmente importante.
A profissão docente sofreu profundas transformações nas últimas décadas. Ao ensino e à relação pedagógica foram acrescentadas novas exigências: avaliação, metas, relatórios, plataformas digitais, reuniões, registos, acompanhamento individualizado, comunicação permanente com as famílias e uma crescente responsabilidade por problemas sociais que ultrapassam frequentemente a própria escola.
Ensinar deixou de ser apenas ensinar.
É também planear, registar, justificar, avaliar, demonstrar resultados e responder continuamente perante múltiplos níveis de exigência.
Não se trata de negar a importância da avaliação ou da responsabilidade profissional. Uma escola de qualidade precisa de avaliação. A questão está em saber quando a avaliação deixa de ser um instrumento de melhoria e passa a constituir uma forma permanente de controlo.
É aqui que Michel Foucault pode ajudar-nos a compreender o que aconteceu.
Foucault mostrou que o poder moderno não funciona apenas através da proibição ou da autoridade explícita. Pode funcionar através da observação, da classificação, da comparação e da normalização.
O indivíduo acaba por interiorizar o olhar que o avalia.
Na escola contemporânea, o professor pode sentir que precisa continuamente de demonstrar que cumpre, que é competente, que atingiu os objetivos e que consegue responder a exigências cada vez mais numerosas. O controlo já não precisa de estar sempre visível: pode ser interiorizado.
E quando isso acontece durante anos, a questão deixa de ser apenas profissional.
Passa a ser também uma questão de saúde.
O corpo também regista a forma como trabalhamos. É por isso que a saúde dos professores não pode ser reduzida a uma questão de resiliência individual.
O stress prolongado, a sobrecarga, a dificuldade em desligar do trabalho e a redução da autonomia podem contribuir para manifestações muito diversas: perturbações do sono, cefaleias, alterações gastrointestinais, problemas da voz, queixas musculoesqueléticas, fadiga persistente e sofrimento psicológico.
Não significa que estas manifestações tenham uma causa exclusivamente profissional. A doença resulta frequentemente da interação entre fatores individuais, sociais e laborais.
Mas seria igualmente errado ignorar o trabalho.
O corpo também regista a forma como trabalhamos.
É por isso que a saúde dos professores não pode ser reduzida a uma questão de resiliência individual.
Quando perante o sofrimento de um trabalhador a resposta é apenas «é preciso saber gerir o stress», corremos o risco de transformar um problema organizacional num problema da pessoa.
Como se o professor adoecesse porque não conseguiu adaptar-se suficientemente bem às exigências do sistema.
Mas uma organização que necessita permanentemente de trabalhadores resilientes deveria também perguntar por que razão produz tanta necessidade de resiliência.
A dimensão das turmas, a diversidade das necessidades dos alunos, a pressão administrativa, a responsabilidade crescente, a dificuldade em exercer autoridade e a perceção de perda de reconhecimento profissional são fatores que devem ser considerados quando analisamos a saúde no trabalho docente.
A medicina do trabalho tem aqui um papel que ultrapassa a avaliação individual.
Quando um trabalhador de uma fábrica adoece, pensamos nas condições daquela fábrica. Quando um professor adoece, deveríamos ter a mesma preocupação em relação às condições da escola.
Não basta identificar a doença. É necessário procurar os fatores de risco, compreender a organização do trabalho e perceber se aquilo que aparece como sofrimento individual é, afinal, a expressão de um problema coletivo.
Esta perspetiva é particularmente importante porque a escola tem uma missão social singular.
Quando um trabalhador de uma fábrica adoece, pensamos nas condições daquela fábrica. Quando um professor adoece, deveríamos ter a mesma preocupação em relação às condições da escola.
Uma escola que perde professores por exaustão, desmotivação ou doença perde também experiência, conhecimento, continuidade pedagógica e capacidade de relação com os alunos.
Por isso, cuidar da saúde dos professores não é apenas uma questão de proteção individual.
É também uma questão de qualidade da escola.
Talvez tenhamos de inverter a pergunta.
Em vez de perguntarmos apenas «quanto conseguem os professores suportar?», deveríamos perguntar:
«Que condições de trabalho precisamos de criar para que os professores não tenham de suportar tanto?»
A resposta não passa por eliminar a avaliação, a exigência ou a responsabilidade.
Passa por recuperar aquilo que nenhuma organização pode dispensar durante muito tempo: autonomia, confiança, reconhecimento e sentido no trabalho.
Porque uma escola pode ter bons currículos, boas plataformas, bons indicadores e sofisticados sistemas de avaliação.
Mas nenhuma tecnologia administrativa substitui um professor com tempo para ensinar, autoridade para educar e saúde para continuar a fazê-lo.
Quando um professor adoece, talvez devêssemos olhar para além do professor.
E perguntar, com a mesma atenção clínica com que procuramos a causa de uma doença: o que está a acontecer no trabalho?

Isabel Mendes
Isabel Mendes é médica do trabalho e gestora de serviços de saúde.
