Ana Isabel Sousa, da Autodoc
«O nosso investimento mais importante é feito nas pessoas.»

Pessoas e tecnologia marcam esta conversa com Ana Isabel Sousa, uma das profissionais portuguesas de recursos humanos com maior prestígio, com uma carreira multinacional de destaque. Recentemente foi anunciada como chief people officer da Autodoc, retalhista on-line de peças e acessórios para veículos na Europa.

Texto: Redação «human» Fotos: DR

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Quais são os principais desafios da Autodoc, ligados a inovação e tecnologia?

Estar numa empresa internacional é um desafio por si só. Contudo, gostaria de destacar dois aspetos: a cultura de inovação e os cenários futuros.

A cultura de inovação representa a mentalidade e as práticas de uma organização que promove o pensamento inovador, alimentando a criatividade e a abertura a novos métodos. Isto melhora o desenvolvimento e a qualidade de novos produtos e serviços, e, simultaneamente, é uma vantagem para a Autodoc, uma vez que operamos em 27 países europeus, com diferentes culturas e formas de trabalhar e de pensar. Porém, promover tal cultura é um desafio e requer uma mudança nas operações para capacitar a colaboração das pessoas, a partilha de ideias e o assumir riscos, juntamente com o compromisso de investir na inovação e ver os desafios como oportunidades de aprendizagem.

Além disso, também não há inovação sem tecnologias e exercícios de previsão de futuros cenários. Este pode ser o caminho da glória, mas também pode ser o maior erro de uma empresa. Prever cenários corretamente permite às empresas liderarem oportunidades emergentes, minimizar riscos e tornarem-se pioneiras ou líderes de um mercado. No entanto, a natureza do que não é previsível torna o planeamento e a estratégia verdadeiramente desafiantes, exigindo uma mistura de criatividade, pensamento crítico e, cada vez mais, o poder da inteligência artificial.

Como integra tudo isso com a vossa estratégia de recursos humanos?

Tendo-me juntado à Autodoc muito recentemente, tenho sido genuinamente surpreendida pela cultura organizacional aberta e pelo entusiasmo dos colaboradores em apoiar a visão de «tornar a mobilidade fácil e sustentável».

Nas minhas funções, tenho a tarefa de encontrar um equilíbrio entre a promoção de novas ideias para a inovação e alimentar uma forte cultura de ownership.

Ao alavancar os pontos fortes de nossos colaboradores, a tecnologia e os insights baseados em inteligência artificial, podemos explorar e preparar-nos proativamente para o que o futuro nos reserva. Esta abordagem permite-nos tomar decisões mais informadas e, ao mesmo tempo, nutrir um sentimento de pertença entre as nossas equipas.

Que tipo de pessoas e de competências procuram para a empresa?

Em primeiro lugar, o nosso objetivo é trazer profissionais excecionais que respeitem a diversidade de culturas e que adotem diferentes formas de pensar. Com presença em diferentes países na Europa, incluindo Portugal, Alemanha, França, Luxemburgo, Polónia, Holanda, República Checa, Ucrânia, Moldávia e Cazaquistão, estamos a recrutar massivamente em todas estas regiões para as mais variadas funções, nomeadamente Tecnologia, Produto, Atendimento ao Cliente, Supply Chain, Gestão de Categoria, People, Finanças, Legal, entre outras.

Por um lado, na área de Tecnologia e Produto, estamos a procurar talentos nacionais e internacionais para engenharia de software, análise e gestão de dados, gestão de produto. Estamos à procura de pessoas com diferentes percursos académicos, incluindo funções  juniores e seniores. Mas lá está, isto são apenas requisitos académicos.

A Autodoc esforça-se para construir uma organização de engenharia de produto de excelência, e isso requer também uma forma específica de pensamento e comportamento. Quando estamos a recrutar não procuramos apenas o melhor currículo – claro que é importante ter um percurso profissional sólido –, mas procuramos talentos que entendam que existe um propósito maior. O seu trabalho impacta clientes reais e naturalmente as receitas da empresa. Isso requer paciência e, consequentemente, um passo atrás antes de focar no desenvolvimento. A premissa base é: nós colocamos os nossos clientes em primeiro lugar, por isso é importante aproveitar esta oportunidade para mostrar que os colaboradores se preocupam com a experiência do utilizador e o impacto nos negócios. Assim, os nossos colaboradores mais do que serem muito talentosos, também devem saber ouvir e aprender.

Tenho sido genuinamente surpreendida pela cultura organizacional aberta e pelo entusiasmo dos colaboradores em apoiar a visão de «tornar a mobilidade fácil e sustentável».

Como caracteriza, grosso modo, os tipos de perfis de pessoas que têm na Autodoc?

A Autodoc valoriza pessoas que colocam a equipa e a organização em primeiro lugar. Compreender a importância de aprender é um fator chave para o sucesso da equipa, ao invés de o foco estar no sucesso individual. Por isso, dizemos com orgulho que os nossos colaboradores são talentosos e procuram as oportunidades certas para liderar e motivar outros. Para a Autodoc, os melhores colaboradores são aqueles que usam a sua experiência para melhorar as competências da equipa ou mesmo da organização. Devo dizer aqui que as competências técnicas são importantes, mas é igualmente importante ser humilde. Além disso, precisamos de pessoas com ownership e proactivas, capazes de questionar e de adicionar valor. As equipas da Autodoc são ambiciosas e curiosas. Esperam ser melhores do que no dia anterior, e trabalham para isso. Daí que o sentido de ownership seja crucial na nossa cultura organizacional.


Como olha para o seu desafio na gestão do capital humano, tendo em conta as duas vertentes tecnologia e pessoas?

A Autodoc, como assinalei, opera em 27 países europeus. Tem cerca de 5.000 colaboradores em 10 localizações, incluindo Portugal. E esse é o verdadeiro desafio: combinar diferentes culturas e idiomas no mesmo ambiente de trabalho tecnológico. Porém, a nossa expertise está na inovação e na tecnologia, o que facilita a nossa estratégia ligada a pessoas.

Eu diria que o verdadeiro desafio é o próprio mercado de tecnologia e produto. A inovação e a tecnologia estão a ser desenvolvidas muito rapidamente. Todas as empresas de tecnologia trabalham diariamente para serem melhores do que a sua concorrência, pois é isso que lhes dará vantagem competitiva. Este ambiente pode ser difícil e gerar alguma ansiedade, por vezes. Mas é aí que entra a minha equipa. Parte do meu papel é desenvolver condições para que os nossos colaboradores (ou potenciais candidatos) vejam a Autodoc como um local de respeito, de desenvolvimento profissional com o qual se identificam e onde se sentem confortáveis ​​e seguros.

É muito importante proporcionar condições de trabalho que permitam a melhor relação possível entre trabalho e vida familiar, e o pacote salarial e de benefícios é uma forma de atrair os melhores candidatos, bem como apresentar uma atitude empática e amigável no processo de recrutamento. Isto pode fazer a diferença quando tiverem de escolher uma ou outra oferta de emprego. Embora ainda estejamos no caminho para melhorar a nossa marca empregadora, estou confiante de que alcançaremos o nosso objetivo nos próximos meses.

Em que medida o negócio da empresa assenta na tecnologia? E nas pessoas?

A Autodoc é um retalhista on-line líder de peças e acessórios automóveis na Europa, a tecnologia é o nosso núcleo, em particular em Portugal, onde está localizado o nosso centro tecnológico de excelência que suporta toda a operação internacional. Mas, naturalmente, nada é possível sem as pessoas. É por isso que somos verdadeiramente people-centric, sejam os nossos colaboradores, clientes, parceiros ou a comunidade como um todo. Em Portugal temos acesso aos melhores profissionais de toda a Europa, bem como no mercado global. Os gestores seniores, em particular, já trabalharam em empresas tecnológicas europeias líderes e, portanto, trazem consigo experiência e know-how, o que pode ajudar a Autodoc a alcançar novos patamares. Eles irão impulsionar o desenvolvimento, acelerar o crescimento, otimizar processos e aumentar o nível de segurança e engenharia.

Assim, o nosso investimento mais importante no longo prazo será o que é feito nas pessoas, no know-how e na sua experiência. Estamos realmente empenhados na autonomia e na capacitação das nossas pessoas, para se tornarem os futuros líderes de um grupo internacional inovador e de referência.

A Autodoc valoriza pessoas que colocam a equipa e a organização em primeiro lugar. Compreender a importância de aprender é um fator chave para o sucesso da equipa, ao invés de o foco estar no sucesso individual.

Podemos dizer que tecnologia e pessoas são as duas vertentes mais importantes para a generalidade das empresas, no tempo que vivemos e no que perspetivamos para o futuro?

Claro. A Autodoc é uma empresa tecnológica e, sem pessoas, nenhuma empresa funciona. Seja a Autodoc ou qualquer outra empresa.

Os colaboradores são guiados por planos de carreira e de desenvolvimento concretos, e a geração atual tem dificuldade em gerir a estagnação profissional, não quer um emprego para a vida toda, escolhe a empresa com base na cultura, no projeto, no propósito ou no desafio que lhe é apresentado. Eles também valorizam o equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, horários flexíveis e trabalho remoto. Isto será cada vez mais exigido por este perfil de colaboradores, que gostam de estar na vanguarda da tecnologia, de ser ouvidos e de sentir que têm um papel relevante nas empresas. Pretendem crescer rapidamente nas organizações e assumir funções de liderança, reforçando a vertente de ambição que valorizamos na Autodoc. Consideram que o foco das empresas deve ir além do lucro, passando por temas como a responsabilidade social, a sustentabilidade e a ética, que devem estar presentes nas organizações.

De que forma olha para o seu cargo de chief people officer?

Estou muito entusiasmada com este novo desafio como chief people officer da Autodoc e motivada para promover e desenvolver talentos. Temos a ambição de ser uma empresa de referência no que se refere  à construção de equipas de alto desempenho.

Como referi, as empresas devem valorizar os seus recursos humanos e respeitar e responder às suas necessidades. Dedicar-me-ei também a temas como inclusão, diversidade e igualdade de género, que são particularmente importantes para mim.

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»» Ana Isabel Sousa, nova chief people officer da Autodoc, adquiriu uma vasta experiência em vários cargos de liderança na Farfetch, no Porto, onde esteve cerca de 10 anos. Assumiu nesta empresa funções de de vice-president para People Strategy e director para Global People Strategy & Portugal Talent and Peopler. Mais recentemente, ocupou a função de vice-president para People Lifecycle durante dois anos. Antes de iniciar a sua carreira em gestão de pessoas, formou-se em Psicologia Clínica na Universidade de Évora, tendo-se especializado mais tarde em Recursos Humanos com um mestrado na área.

A Autodoc é um retalhista on-line líder em peças e acessórios para veículos na Europa. Fundada em Berlim em 2008 por Alexej Erdle, Max Wegner e Vitalij Kungel, tornou-se rapidamente uma das empresas de Internet mais interessantes do continente. Desde novembro de 2022, tem vindo a operar como sociedade anónima europeia Autodoc SE. O Conselho de Administração é composto por Dmitry Zadorojnii (CEO, chief executive officer, da Autodoc SE e diretor geral da ATD PORTUGAL) e Lennart Schmidt (CFO, chief financial officer). Em 2022, a Autodoc atingiu vendas de mais de 1,1 mil milhões de euros (2021: 1,0 mil milhões de euros). Inclui 5,2 milhões de produtos na sua gama para 166 marcas de automóveis, 23 de pesados e 154 de motos. Dispõe de lojas virtuais em 27 países europeus, incluindo Portugal desde 2013. Emprega cerca de 5.000 pessoas em 10 países: Alemanha, França, Cazaquistão, Luxemburgo, Polónia, Portugal, Países Baixos, Moldávia, República Checa e Ucrânia.