Francisco Vázquez: «O conceito de escritório vai desaparecer.»

Lisboa acolheu recentemente uma das «Workplace Design Conferences 2017», conjunto de 25 eventos internacionais do 3g Smart Group. No Museu da Eletricidade, vários especialistas debateram e divulgaram novas formas de trabalhar e novos espaços corporativos. Oportunidade para uma conversa com um desses especialistas, Francisco Vázquez, o presidente do 3g Smart Group,

Por António Manuel Venda

 

O senhor já afirmou que o trabalho deixou de ser um lugar e passou a ser uma ação. Em que é que se baseia esta ideia?

As novas tecnologias provocaram uma deslocalização do trabalho. As empresas nascidas da Revolução Industrial assumiram novos sistemas de reorganização do trabalho, dando prioridade aos processos de produção, especialização, trabalho em cadeia, redução de custos e controlo de tempos. O trabalho era um lugar onde se ia, com uma máquina na qual trabalhar. Com a revolução tecnológica, tudo isto mudou radicalmente, provocando a deslocalização do trabalho, que de um lugar aonde se ia passa a ser uma atividade que se realiza. Os trabalhadores podem ser produtivos em qualquer lugar e a qualquer hora. Os lugares de trabalho fixos nas empresas permanecem vazios durante grande parte da jornada laboral.

Estamos na iminência de passar para um novo mundo do trabalho?

Há vários anos que nos damos conta destas mudanças na forma de trabalhar, no entanto até agora as empresas não estavam realmente conscientes desta realidade e da necessidade de transformação para sobreviver dentro da, entre aspas, nova normalidade. A tecnologia muda a uma velocidade exponencial, e com ela tudo muda. Por isso temos de estar preparados para assumir as mudanças de forma contínua.

Como é que isso poderá afetar a atividade das empresas e de outras organizações?

Este novo paradigma social e profissional faz com que as formas de trabalhar se modifiquem e evoluam. Terminaram as carreiras lineares e seguras, os empregos para a vida, e abre-se caminho a uma aventura laboral e a uma reinvenção contínua, para encontrar uma satisfação profissional e emocional. Estamos a transformar-nos em ecossistemas profissionais, baseados na colaboração e no intercâmbio de conhecimento, em que fazemos adições, em que vamos agregando. O número de profissionais independentes aumentou consideravelmente nos últimos anos. O cidadão consumidor assume simultaneamente o papel de cidadão produtor de valor, e isso desencadeia a colaboração necessária de uns e de outros em todos os sectores. Nascem empresas jovens, criadas com intuição e inteligência, sem grande estrondo nem grandes investimentos, e são essas empresas que fazem tremer as grandes corporações, que veem o seu estado de bem-estar ameaçado, em vez de verem nesta mudança uma oportunidade para crescer e melhorar as respetivas atividades.

A empresa colaborativa, por exemplo, está baseada em organizações horizontais e comunidades globais que interagem em redes on-line e plataformas peer-to-peer, nas quais prima o cliente e o mercado. Isto pressupõe que se trabalha por projetos, que se escolhe os melhores, que se partilha conhecimento e se cria valor, encontrando a felicidade no trabalho. A linha entre a vida pessoal e a vida profissional é cada vez mais ténue. Estas são as novas formas de trabalhar que os novos profissionais estão a impor. São os chamados trabalhadores do conhecimento, e esta forma de trabalhar pouco a pouco será a mais habitual.

E a gestão das pessoas, que impacto poderá vir a registar?

O talento dos jovens que integram o mercado de trabalho é escorregadio: é tão difícil de captar como de reter. Coloquemos três grandes questões: qual é o nosso propósito como empresa?; o que é que necessitam e procuram as pessoas que colaboram connosco?; e que possibilidades nos traz a tecnologia. A partir daí, planeemos um mapa de competências, ferramentas e espaços digitais. É impossível mudar hábitos e culturas sem ter em conta estes fatores. Um ambiente digital, polivalente e flexível é aquele que poderá ser capaz de atrair talento empresarial.

Os efeitos ao nível de work-life balance poderão levar a mudanças na nossa sociedade?

O trabalho flexível e a mobilidade são os grandes aliados do equilíbrio entre vida e trabalho. As pessoas são o centro desta nova normalidade, e dependerá de cada um de nós – e não tanto das empresas – alcançar esse equilíbrio.

Qual o impacto da tecnologia neste âmbito?

Esse impacto é total. Na verdade, estamos a viver uma autêntica revolução, que é a tecnológica.

Que conclusões têm vindo a tirar das vossas conferências pelo mundo?

A principal conclusão é que a transformação das empresas assenta em três grandes pilares: as pessoas, a tecnologia e os espaços. Essas são as alavancas da transformação corporativa, é aí que tudo se joga. É fundamental entender que as pessoas têm de estar no centro dessa transformação, e que a tecnologia por si só, sem propósito, não nos levará a nenhum lado. Além disso, num contexto digital cheio de aspetos positivos, é preciso reforçar valores como a confiança, a empatia e a partilha e operar a mudança a partir das pessoas e da identidade de cada empresa. Inovação sim, mas com sentido.

Consegue perspetivar o mundo do trabalho num horizonte temporal de 10 anos?

O trabalho irá connosco para a onde formos. Não haverá separação entre trabalho e vida privada, porque o trabalho fará parte da nossa vida. Assim, o conceito de escritório vai desaparecer, e qualquer espaço passará a ser um possível espaço de trabalho. É a separação total de trabalho-lugar.

 

»»» Francisco Vázquez é presidente de 3g Smart Group, um grupo internacional de empresas de serviços de consultoria, engenharia e arquitetura corporativa. Presta assessoria aos seus clientes para conseguirem vantagem competitiva através do design e da gestão dos seus espaços corporativos. Iniciou a atividade no ano 2000 em Espanha e em Portugal, consolidando-se como referência nos mercados ibérico e latino-americano. Nestes anos, desenvolveu mais de dois mil projetos em mais de 25 países.

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