Como um bálsamo

O novo ano letivo foi retomado. Uma espécie de ritual no romper do outono. Consoante as idades e os níveis, assim o afã, a ansiedade e as expectativas. E isto será válido para boa parte das crianças e jovens em escolaridade obrigatória.

Por António Souto

 

E igualmente para a generalidade dos professores, que é quem organiza tudo, entre o fim de um ano e o início do seguinte, para que tudinho esteja em ordem e, com a serenidade tão bem repisada, possa e deva funcionar sem grandes sobressaltos. Diga-se em abono da verdade que este labor de bastidores é feito com a normal discrição, sem que ninguém dê conta de nada, e por isso para a maioria dos cidadãos as férias são férias, e os professores, esse escol de constantes insaciados, são quem mais as goza, em tempo delas como em todo o tempo de boa vida, privilegiados e ingratos.

E este lugar-comum, direta ou indiretamente propagado aos quatro ventos, acaba por arrastar consigo a crença inabalável de que tudo o mais que emane desta súcia não será para levar a sério, nem a sólida formação e qualificação de base, como se espera de quem conclui a douta academia, nem a preocupação com o contínuo e exigível enriquecimento dos saberes, específicos ou transversais, quantas vezes de intricado julgamento, nem a manifesta vocação para o exercício das funções, nem o zelo na preparação de quefazeres com método e rigor diferenciados, nem as dores múltiplas (solitárias ou partilhadas) que se transportam quotidianamente da escola para casa e de casa para a escola, que cada caso é um caso e cada aluno um aluno e cada família uma família. Nada disto, portanto, será para levar a sério. Porque o professor se converteu num nome coletivo e pouco concreto. Professor. Equivalente a Classe, oportunisticamente (des)classificada. E daqui se resvala para um vertiginoso apoucamento da profissão, para uma incauta desautorização, para um frequente abrir portas à indisciplina.

O importante, contudo, e em cada ano, é que os novos anos letivos sejam retomados, de igual modo por todos, que de insatisfações e propaladas agitações anda o mundo atulhado, «e pur si muove!». O mais é música para ouvido escarmentado. A tónica terá de estar no cumprimento das metas, nos resultados e nas transições, com as essencialidades necessárias e requeridas, consoante os perfis. E as crianças e os jovens, alheados deste palanfrório, progridem na sua combalida hiperatividade e no seu infausto défice de atenção, transtorno digno de sigla (TDAH) que se não compadece com brandas e afáveis palavras, atacado somente com o afortunado metilfenidato, bálsamo para estes achaques, que invadem escolas e lares, e que mantém entorpecidos males maiores. Só não vê quem não quer.

Inaugure-se, pois, um novo ano, que entre mortos e feridos…

 

 

»»» António Souto (na foto), colaborador permanente da revista «human», é licenciado em «Línguas e Literaturas Modernas» (Universidade de Lisboa) e pós-graduado em «Teoria e Criação Literária» (Universidade Autónoma de Lisboa). Professor em Lisboa, lecionou igualmente em Estrasburgo (França), na Universidade de Ciências Humanas, no Instituto de Tradutores, Intérpretes e Relações Internacionais e na Universidade Popular Europeia. Exerceu, no XIV Governo Constitucional as funções de assessor e de chefe de gabinete no Ministério do Trabalho e da Solidariedade. É autor de vários livros, de poesia e de crónicas.

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