Fernando Fallé
«Para evoluirmos em termos profissionais, temos que passar da dimensão técnica para as dimensões social, conceptual e pessoal.»

O selecionador nacional de Angola de hóquei em patins, aluno da International Coaching University (ICU) em Portugal, fala do coaching de alto rendimento, das características dos atletas vencedores, do que o desporto pode ensinar ao mundo das organizações e do valor do desenvolvimento pessoal e das soft skills na evolução profissional.

Texto: Redação «human» (com o apoio de ICU Portugal)

 

Enquanto selecionador de Angola de hóquei em patins, como vê a aplicação do coaching em equipas de alto rendimento?

A aplicação do coaching em equipas de alto rendimento é hoje em dia uma mais-valia e uma condição sine qua non para o sucesso. E quando nos referimos ao coaching, a sua validade e a sua importância são transversais à organização, seja para dirigentes, seja para técnicos ou para jogadores.

Os atletas já não se contentam em receber e cumprir ordens. Querem entender o que estão a fazer e por que é que estão a fazer. Cada um quer perceber qual é o seu papel como pessoa e profissional na equipa e na própria organização. Precisa de se sentir equilibrado, situado e bem consigo próprio para render ao seu mais alto nível. Sente necessidade de encontrar um propósito maior para a sua atividade.

O mero «executar na perfeição» não é suficiente para que se obtenha resultados excecionais. O comprometimento e o emocional engagement com os objetivos é fundamental para que se obtenha resultados extraordinários. Alto rendimento e excecionalidade não se consegue obter sobre coação ou obrigação. O atleta tem que querer, tem que desejar. A autossuperação contínua tem que ser um resultado da sua própria iniciativa, da sua própria vontade. A excecionalidade exige uma atitude pessoal, digamos assim, excecional.

Com o coaching podemos alcançar a melhor versão de nós próprios, em termos pessoais e em termos profissionais. A expressão «dig deeper» revela muito sobre o processo de coaching. Conhecer-se melhor a si próprio, procurar mais fundo, ir ao âmago das questões, perceber quem somos, o que fazemos e principalmente o «porquê» de o fazemos. Quando sabemos o «porquê» das coisas, o «como» torna-se suportável, ultrapassável e muitas vezes desejável.

O processo de coaching torna-se assim uma caminhada atrativa e aliciante para o coachee, pois é um processo de autodescoberta, autoconsciência, autorregulação, realinhamento e reequilíbrio com consequente maximização de todo o nosso potencial. Um processo onde não existe certo nem errado, mas somente escolhas e consequências. Um processo onde o livre arbítrio, as escolhas e a autorresponsabilização estão sistematicamente presentes. Um processo onde passamos a ser o ator principal na nossa própria vida, em vez de um mero espectador.

De acordo com a sua experiência, quais são as principais características comportamentais de um atleta vencedor?

Acredito que um atleta vencedor apresenta diversas características que se manifestam nos seus comportamentos. São as seguintes:

– ambição e competitividade extrema (necessidade incontrolável de competir e vontade indomável de ganhar e ter sucesso);

– proactividade (não tem medo de correr riscos; a vontade de ganhar é superior ao medo de falhar);

– persistência e resiliência (acredita que tudo é possível para si; desistir não é opção);

– intensidade e presença em tudo o que faz (sem red line, sem poupanças, sem desculpas);

– autoconfiança e mindset progressivo (acredita que tudo se aprende e tudo se consegue melhorar; quando não sabe ou não consegue, encontra maneiras de mudar e melhorar até alcançar o que pretende);

– capacidade de adaptação e superação (contra tudo e contra todos; em qualquer ambiente ou situação; com instinto de «sobrevivência» muito presente);

– não aceita que alguém seja melhor e está disposto a tudo para provar isso mesmo);

– inteligência emocional e resiliência mental (controlo sobre os seus pensamentos e as suas emoções em situações de ansiedade e stress extremo);

– capacidade de criar mentalmente imagens, situações e cenários positivos e motivadores (controlando os seus pensamentos e o seu diálogo interior, criando e desenvolvendo as suas próprias crenças potenciadoras);

– perfeccionista (são muito críticos, detalhistas e assertivos nas suas análises).

Mas, acima de tudo, são pessoas normais, que riem, que choram e que acima de tudo querem ser felizes. Pessoas que escolheram ser a melhor versão de si próprias, sem desculpas, medos, limitações ou restrições exteriores. Utilizam muitas vezes as seguintes perguntas: «Por que não?»/ «Por que não tentar?»/ «Por que não eu?» Partem para a ação. E conseguem.

O mundo organizacional vive hoje de grande competitividade e foco em resultados. Em que medida o desporto pode proporcionar-lhe lições ou princípios de sucesso?

O desporto de alto rendimento como ecossistema orientado para a obtenção de resultados partilha inúmeras afinidades e semelhanças com o ecossistema organizacional empresarial. O próprio desporto profissional e de alto rendimento já ultrapassou a esfera do simples clube. As sociedades anónimas desportivas [SAD] ligaram o mundo empresarial e corporativo com o mundo desportivo. Os clubes têm uma estrutura e um modelo corporativo e em alguns casos são geridos como empresas.

Enuncio ainda algumas afinidades e alguns princípios de sucesso que, na minha opinião, e de alguma forma, também são replicados nas organizações corporativas/ empresariais.

O desporto apresenta infraestruturas e modelos organizacionais orientados para a aprendizagem, o treino e a formação dos seus quadros. Possui gabinetes de recrutamento especializado, com especial vocação para a deteção e a seleção de talentos. O objetivo final é detetar e captar o mais precocemente possível os jovens talentos, maximizando o seu potencial de forma a criar mais-valias para a própria organização.

Apesar dos investimentos megalómanos feitos por alguns clubes em determinados jogadores, nem sempre ganham. O todo tem que ser mais do que a soma das partes. O coletivo à frente do individual. A equipa sobrepõe-se ao indivíduo. Nem sempre a melhor equipa é a que tem os melhores elementos. Ter uma equipa é mais importante do que ter um conjunto de estrelas egocêntricas e com falta de sentido coletivo e social.

A cultura organizacional do clube e da empresa determinam o perfil das contratações e com o tempo influenciam a orientação dos comportamentos dos elementos que dela fazem parte. No entanto, praticamente não existem barreiras em termos de nacionalidade, raça, credo, gostos ou tendências. A cultura desportiva e organizacional absorve todas essas diferenças, tentando transformá-las em vantagens. E nos dias que correm a diversidade é uma vantagem. Isto porque nos permite olhar para os acontecimentos de diversas maneiras e com diferentes pontos de vista, tentando antecipar tendências e soluções.

Por último, importa maximizar recursos e obter resultados extraordinários. É talvez o ponto mais consensual. No entanto, mesmo que por vezes pareça ficar esquecido por ambos os ecossistemas, os resultados facilmente nos recordam desta verdade inultrapassável. As pessoas são os grandes ativos e as mais-valias em todas as organizações. É nelas que devem de ser feitos os investimentos. Na sua formação como pessoas e profissionais de excelência.

Que papel podem ter o desenvolvimento pessoal e as soft skills na evolução profissional?

Se entendermos as soft skills como habilidades comportamentais inatas ou desenvolvidas, que para além de facilitarem e potenciarem o trabalho em equipa melhoram a assertividade e a comunicação e minimizam conflitos no ambiente organizacional, facilmente percebemos a sua importância no futuro.

As organizações valorizam cada vez mais o trabalho em equipa, fruto da consciência de que juntos produzimos mais, melhor, mais depressa e com menos desgaste. Assim sendo, o profissional capaz de trabalhar em equipa, mobilizando os outros em seu redor, acaba por potenciar as forças de todos os elementos, beneficiando a equipa e a própria organização. Esta habilidade, quando presente, abre possibilidades rumo a cargos de liderança nos termos exigidos pelo mercado neste momento.

A capacidade técnica é fundamental, mas por si só não vai permitir ascender muito na escala de liderança dentro de uma organização. Aspetos sociais, conceptuais e de autorregulação pessoal farão a diferença ao longo do caminho.

Não basta saber, é preciso saber explicar. E é fundamental que as outras pessoas estejam recetivas. Para isso, é necessário criar empatia e sinergias com os outros elementos da equipa e da organização. Os skills sociais são fundamentais nos dias que correm. A capacidade de criar definições, conceitos e sistemas motivadores e inspiradores levam a liderança e as organizações para outro nível. Cada vez mais a capacidade de comunicar, interagir, mobilizar, motivar e inspirar é necessária.

O líder de hoje é aquele que comunica bem e consegue extrair de cada um o seu melhor, de forma a conseguir resultados coletivos cada vez mais expressivos. O líder visionário, carismático, inspirador e humanista tem que andar de mãos dadas com o gestor. Nunca como hoje foi tão importante e necessário ter equipas multidisciplinares e multifacetadas. Para evoluirmos em termos profissionais, temos que passar da dimensão técnica para as dimensões social, conceptual e pessoal. Só iremos consegui-lo através do desenvolvimento pessoal ao nível das soft skills decorrentes do esforço empregue na tomada de consciência, no controlo e no desenvolvimento das nossas perceções, emoções e reações.

 

 

»»» Fernando Fallé, treinador português de hóquei em patins, está atualmente ao serviço da Federação Angolana de Patinagem, como selecionador nacional de Angola em Hóquei em Patins, depois de experiências anteriores no cargo (liderou a seleção nos mundiais de 2005, nos Estados Unidos, e em 2007, na Suíça). Foi campeão de Portugal ao serviço da Juventude de Viana.

 

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