Francisco Godinho
«As novas gerações de gestores estão mais sensibilizadas para a SST.»

Francisco Godinho, o diretor geral da Mediaview, perspetiva o futuro da área de saúde e segurança no trabalho (SST) em Portugal. A empresa disponibiliza a plataforma «Careview», através da qual gere mais de um milhão e quatrocentos mil trabalhadores ativos de mais de 79 mil empresas com mais de 320 mil estabelecimentos.

Por Mário Andrade

 

Na Mediaview esperam uma evolução significativa em termos das práticas de SST nas empresas?

Sim, claro. Cada vez mais as novas gerações de gestores estão mais sensibilizadas para esta temática, deixando de lado que a velha ideia de que é um custo em vez de ser um benefício. Ainda se verifica por parte das empresas de trabalho temporário uma política pouco ativa nas práticas de SST, considerando na sua maioria como uma obrigação legal e um custo, não vendo que o custo de novo recrutamento em caso de doença ou acidente será certamente superior. As multinacionais instaladas no nosso país têm demonstrado mais preocupação nesta área, como um acompanhamento na saúde além do que está estipulado por lei. E em termos da segurança há o mesmo procedimento, com avaliações de risco efetuadas em intervalos mais curtos e mais pormenorizadas. Estas boas práticas entram em contágio nas empresas nacionais, observando-se por exemplo as visitas dos médicos aos postos de trabalho, às horas de permanência de técnicos de segurança e ao aumento cada vez maior de horas de formação em temas de SST. Os gestores de recursos humanos já se consciencializaram de que a formação é a principal ferramenta para baixar os índices de acidentes de trabalho e de doenças profissionais.

A situação de que partimos agora é em geral boa? Ou há mesmo muito a melhorar?

O que temos observado é uma melhoria, mas ainda existe um longo caminho a percorrer. A aplicação de programas de saúde nas empresas ainda é escassa, bem como os cuidados de saúde no âmbito preventivo.

Qual é neste âmbito o papel das entidades públicas de supervisão?

Tanto a ACT (Autoridade para as Condições de Trabalho), como a DGS (Direcção Geral da Saúde) têm feito algumas sensibilizações, ações de promoção, mas muito pouco, também devido aos cortes orçamentais.
A ACT, que também é a entidade fiscalizadora,  tem promovido a comunicação das boas práticas aquando das visitas às empresas. Quanto à da DGS (departamento de saúde ocupacional), nota-se que está nitidamente sem meios, com uma estrutura muito pequena, com vários quadros a desempenharem outras funções dentro ou fora. Praticamente é um departamento que trabalha em tempo parcial, para um tema tão importante como a saúde e a prevenção nos postos de trabalho. As empresas adaptaram-se mas esta entidade não. Da realidade com que trabalhamos diretamente e indiretamente, e falamos de mais de dois milhões de trabalhadores ativos e mais de 100 mil empresas, é notória a falta de campanhas nos ‘media’, de acompanhamento nas empresas, sensibilizações, etc. Esta entidade também regula as empresas prestadoras de serviços de SST, e destas também existem inúmeras queixas, casos dramáticos de empresas que estão sem poder faturar e prestar serviços porque as autorizações demoram a ser emitidas, havendo casos de mais de um ano na demora.

Como poderemos melhor em termos de criar em Portugal uma cultura mais sensível às questões da SST? Quer por parte dos responsáveis das empresas, quer por parte dos trabalhadores…

Com Formação. Para gestores e trabalhadores. Não podemos esquecer que é um dos meios mais diretos e eficazes de transmitir o conhecimento, nomeadamente nestas matérias, quer seja presencial ou em ‘e-learning’. O que temos constatado é que cerca de 80% das empresas repetem ações de formação dentro da mesma temática de SST.

O que podermos aprender com os exemplos internacionais? A integração num espaço mais amplo como o da União Europeia pode influenciar a forma como a SST é vista nas empresas?

Há muitos anos que estamos na EU, e pouco se tem visto. Penso que o que mais influencia é a entrada de novos gestores, mais sensibilizados para esta temática e para o bem-estar. Algumas empresas, além do que é obrigatório por lei, possuem serviços médicos e enfermagem para clínica geral e familiar, nutricionismo, psicologia, etc. Esta prática vem promover o bem-estar dos trabalhadores, a diminuição do absentismo por motivos de saúde, um melhor acompanhamento e deteção de doenças profissionais e ainda uma melhor manutenção de talentos.

Consegue traçar algum cenário para as instituições públicas? Pode-se dizer que funcionam num mundo à parte neste âmbito?

Muitas já possuem serviços organizados de SST, e o que se observa é que cada vez mais o têm. Os sindicados e as comissões trabalhadores têm tido um papel importante para que assim aconteça. Depois do caso de 2014 do Amianto num edifício das finanças em Lisboa, o Eestado tem tido uma maior preocupação.

Os desenvolvimentos tecnológicos trarão mudanças na SST, com os novos contextos de trabalho que vão surgindo?

Sim, as novas gerações de trabalhadores também possuem mais conhecimento a nível de TI’s, logo estas irão acompanhas de necessidades. Outro aspeto importante é o novo «Regulamento Geral de Proteção de Dados Pessoais», que irá provocar uma maior aproximação dos trabalhadores a este tema. Prevê-se algumas mudanças significativas neste campo, pois o trabalhador deve ter conhecimento da existência de informação referente a si, na forma como está armazenada e como pode requerer cópia da mesma.

E as novas gerações que chegam ao mercado de trabalho, como lidarão com a sua segurança no trabalho e com as questões ligadas à saúde?

Depende das áreas de trabalho, os que possuem mais conhecimentos e estão mais sensibilizados têm sempre uma preocupação acrescida em relação aos que não têm e aos que necessitam mais de garantir o emprego. Existe ainda um grande fosso entre os que tem noções de SST, e de exigirem condições de trabalho em segurança, e os que não têm. Uma boa iniciativa era a implementação de um certificado para o trabalho, onde a ACT teria um papel importante no controlo da emissão dos mesmos. Cada pessoa antes de entrar no mercado de trabalho deveria efetuar uma formação, nem que fosse apenas umas horas para receber as noções básicas de segurança e saúde bem como ser informada sobre as medidas de autoproteção. Fica a ideia.

 

 

»»» Francisco Godinho é diretor geral da Mediaview. Esta empresa disponibiliza a «Careview», uma plataforma desenvolvida desde a sua origem para a gestão do serviço de saúde e segurança no trabalho (SST). O seu crescimento é fruto do apoio dado pelos seus utilizadores, que ao longo dos últimos 10 anos, tornaram a plataforma mais adaptada à realidade operacional das empresas prestadoras de serviços e das empresas com gestão de serviços internos. No total de clientes da Mediaview, a plataforma gere mais de um milhão e quatrocentos mil trabalhadores ativos de mais de 79 mil empresas com mais de 320 mil estabelecimentos.

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