Após vários anos a trabalhar na área da saúde mental corporativa, Ana Ruivo percebeu a necessidade de um projeto pensado à sua imagem. A UKSI, diz, é a forma que encontrou de continuar, «para que todas as pessoas tenham um lugar seguro onde pessoas cuidam de pessoas.»
Texto: Redação «human» Fotos: DR
Como surgiu o projeto da UKSI e como foi pensado?
A UKSI nasceu depois de quase 10 anos a trabalhar na área da saúde mental corporativa, anos em que contribuí para a quebra do estigma em torno deste tema, para a mudança de paradigma na forma como as organizações olham para a saúde mental, e em que tive a oportunidade de trabalhar diretamente com mais de uma centena de líderes. Chegou um momento em que senti necessidade de continuar esta missão, mas através de um projeto meu, pensado à minha imagem, onde os princípios ético, humano e científico estivessem acima de tudo o resto.
Antes de ser gestora e empreendedora, fui enfermeira durante 10 anos, e essa marca não se apaga: serei sempre uma pessoa que cuida de pessoas. A UKSI é, no fundo, a forma que encontrei de continuar a fazer isso, mas com total liberdade para construir um projeto fiel àquilo em que acredito.
Na informação que comunicaram, falam da ambição de criar um ecossistema de saúde mental e bem-estar. O que significa, na prática, esta abordagem?
Sem nunca perder o foco na saúde mental das pessoas, e também na «saúde mental» da própria organização, criámos um ecossistema onde, numa única aplicação, as pessoas têm acesso a um conjunto de serviços que, não sendo diretamente saúde mental, contribuem de forma decisiva para o nosso bem-estar e o equilíbrio psicológico.
Falamos de um programa de apoio ao colaborador completo e integrado, que ajuda a resolver questões do dia-a-dia em várias frentes: apoio social, fiscal, financeiro, jurídico, nutricional, e até acesso a consultas médicas. A lógica é simples: a saúde mental não existe isolada do resto da vida das pessoas, muitas vezes o que gera ansiedade ou desgaste é uma questão financeira, jurídica ou familiar por resolver. Ao integrar tudo isto num só lugar, conseguimos cuidar da pessoa como um todo, e não apenas de um sintoma.
Já foi divulgado como surgiu o nome UKSI… Que significado pessoal e profissional têm estes dois conceitos para si?
O nome nasce de uma viagem que fiz à Finlândia aos nove anos de idade. Ainda hoje me lembro do choque de realidade que foi encontrar uma cultura tão diferente da nossa, onde o bem-estar e o tempo para a vida pessoal e familiar eram genuinamente respeitados. Foi talvez a primeira vez que percebi, na prática, que outra forma de viver e de trabalhar era possível.
Anos mais tarde, ao pensar no nome deste projeto, quis honrar essa memória. Yksi significa «um» e uksi significa «porta», e é exatamente isso que queremos ser para as pessoas: uma porta aberta para o seu bem-estar, um único lugar onde a saúde mental é prioridade, colocada sempre em primeiro lugar.
«Numa era de inteligência artificial, a inteligência emocional vai ser a nossa tábua de salvação. E é exatamente por isso que, com a UKSI, quero que todas as pessoas tenham um lugar seguro onde pessoas cuidam de pessoas.»

Temos assistido a uma crescente preocupação das empresas com a saúde mental. Esta mudança representa uma verdadeira transformação cultural ou ainda existe um caminho significativo a percorrer?
Acredito que já foram dados passos importantes, mas há ainda um longo caminho a percorrer, especialmente agora, com o impacto crescente da inteligência artificial nas nossas vidas. Nem imaginamos as mudanças que se avizinham, muito menos a velocidade a que vão acontecer, e ainda menos o impacto que isso terá na nossa saúde mental.
Numa era de inteligência artificial, a inteligência emocional vai ser a nossa tábua de salvação. E é exatamente por isso que, com a UKSI, quero que todas as pessoas tenham um lugar seguro onde pessoas cuidam de pessoas. Não acredito numa saúde mental entregue à inteligência artificial. A tecnologia pode e deve ser uma aliada, mas o cuidado, esse, tem de continuar a ter rosto humano.
Quais são hoje os principais desafios de saúde mental que identifica nas organizações portuguesas? E na sociedade em geral?
Nas organizações, o principal desafio é conseguir manter as pessoas num clima psicologicamente seguro. Isto vai muito além de estarem alinhadas com a missão e os valores da empresa: significa poderem ser elas próprias, sentirem-se à vontade para expressar a sua opinião e encontrarem espaço real para se desenvolverem profissionalmente. É esse ambiente que permite atingir a máxima prestação e produtividade, e não o contrário.
A isto junta-se o respeito pelo tempo pessoal e familiar, porque sem esse equilíbrio as pessoas simplesmente não são produtivas de forma sustentável. O grande desafio das organizações portuguesas é, por isso, conseguir proporcionar tempo pessoal de qualidade às suas equipas, sem que isso seja visto como estando em conflito com o desenvolvimento profissional, pelo contrário, um potencia o outro.
Na sociedade em geral, o desafio é normalizar a saúde mental, colocando o seu cuidado preventivo ao mesmo nível da saúde física ou da prática de exercício. Precisamos de deixar de olhar para a saúde mental como algo a que só recorremos quando já há um problema instalado, e passar a encará-la como uma prática de autocuidado diária, tão natural como cuidar do corpo.
Acha que o mundo corporativo pode ajudar a que o tema também na sociedade em geral ganhe mais relevância?
Não acho apenas que possa ajudar. Acredito que terá o papel mais importante de todos. E isto por dois motivos muito simples. Primeiro, porque passamos mais de metade do nosso tempo acordados a trabalhar. Segundo, porque vivemos numa sociedade onde a resposta a estes temas, e até a própria abertura para falar sobre eles, ainda é escassa, o que torna o papel das empresas absolutamente fundamental, seja por responsabilidade social corporativa, seja por uma questão mais profunda de sustentabilidade humana.
Acredito mesmo que a verdadeira mudança de mindset vai começar quando normalizarmos a saúde mental dentro das empresas, e quando estas passarem a ser verdadeiras promotoras de condições que a favoreçam. É aí que está a alavanca para transformar também a sociedade em geral.
Onde termina a responsabilidade da empresa e começa a responsabilidade individual quando falamos de saúde mental no trabalho?
O indivíduo tem sempre o papel principal e fundamental no cuidado da sua própria saúde mental. Ninguém pode ser verdadeiramente apoiado psicologicamente, nem adotar práticas de autocuidado, se não houver da sua parte essa vontade e abertura. A mudança começa sempre em nós, enquanto indivíduos.
As empresas são agentes catalisadores e sensibilizadores deste processo, e isso, por si só, já é um papel imenso. São, sem dúvida, responsáveis por proporcionar ambientes de trabalho saudáveis e psicologicamente seguros, que facilitam e potenciam o bem-estar da pessoa. Mas essa responsabilidade termina na criação de condições; a decisão de as aproveitar pertence sempre a cada um de nós.
«O desafio é fazer as empresas perceberem que prevenir sai sempre mais barato do que remediar. Tem de haver uma verdadeira mudança de cultura, para que olhar a saúde mental de forma preventiva passe a fazer parte do ADN da organização. E essa mudança não é instantânea, uma cultura constrói-se de forma gradual.»

É possível construir uma cultura organizacional saudável sem ter presente temas como liderança, carga de trabalho, pressão por resultados e equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal?
Impossível. Todos esses temas, sem exceção, influenciam diretamente a construção de uma cultura organizacional saudável e têm de estar sempre presentes na equação. A verdadeira dificuldade está precisamente em conseguir equilibrá-los, mantendo sempre o foco no bem-estar das pessoas, mas sem nunca perder de vista os resultados.
Muitas organizações procuram apoio quando já existe um problema. Como se passa de uma lógica de resposta à crise para uma verdadeira cultura de prevenção?
O desafio é exatamente esse: fazer as empresas perceberem que prevenir sai sempre mais barato do que remediar. Tem de haver uma verdadeira mudança de cultura, para que olhar a saúde mental de forma preventiva passe a fazer parte do ADN da organização. E essa mudança não é instantânea, uma cultura constrói-se de forma gradual.
Diria que um bom ponto de partida é formar e sensibilizar os líderes para os temas do bem-estar e da saúde mental, mostrando-lhes de forma objetiva os KPIs [key performance indicators] que entram nesta equação e qual o retorno de investimento possível. Quando a liderança compreende os números por trás da prevenção, a mudança de cultura começa a acontecer de forma muito mais natural.
A UKSI combina tecnologia com apoio humano. Onde é que a tecnologia acrescenta valor e onde considera que o contacto humano continua a ser insubstituível?
Na minha visão, a saúde mental é e será sempre humana. Afinal, aquilo que mais nos distingue das máquinas são precisamente as emoções. A bandeira da UKSI é «pessoas a cuidar de pessoas» – profissionais qualificados, empáticos e capazes de dar resposta a quem precisa.
A tecnologia, na UKSI, é usada como aliada: permite-nos chegar a mais pessoas, em diferentes momentos e lugares, de forma mais rápida, ágil e eficaz. Mas o seu papel é sempre o de facilitar o acesso ao cuidado humano, nunca substituí-lo.
Num contexto em que a inteligência artificial está a transformar a área da saúde, entre tantas outras, como imagina o papel da tecnologia no futuro do apoio à saúde mental?
Acredito que a inteligência artificial e a tecnologia podem ser fortes aliadas na área da saúde em geral, potenciando o seu desenvolvimento, otimizando processos, criando algoritmos que ajudam a evitar erros, entre tantas outras aplicações. Mas quando falamos especificamente de saúde mental, a minha posição continua a ser bastante conservadora.
Não podemos ter robôs a analisar as nossas emoções. Arrisco mesmo dizer que, se enveredarmos por esse caminho, estaremos a criar um risco elevado para a saúde pública. Há algo na complexidade e na fragilidade do humano que não pode, nem deve, ser processado por um algoritmo.
«Precisamos de deixar de olhar para a saúde mental como algo a que só recorremos quando já há um problema instalado, e passar a encará-la como uma prática de autocuidado diária, tão natural como cuidar do corpo.»

A expressão «quanto custa não cuidar» resume uma das premissas da UKSI. Como pode traduzir-se em números concretos para uma organização? Que indicadores considera mais relevantes? Pode existir o risco de a saúde mental passar a ser encarada apenas como mais um indicador?
Falando de empresas, inevitavelmente falamos de números: produtividade, faturação, lucro. E se queremos que a saúde mental entre a sério na agenda das organizações, temos de falar a linguagem que elas entendem: a do ROI [return on investment] e dos KPIs.
Sabemos que a ausência de saúde mental tem impacto direto na produtividade, no absentismo, no presentismo, no turnover, nos acidentes de trabalho e até na sinistralidade dos seguros de saúde. Estes são os indicadores que qualquer organização deveria ter presentes quando pensa no investimento em saúde mental. É aqui que a expressão «quanto custa não cuidar» ganha corpo e se torna tangível para quem decide orçamentos.
Dito isto, a saúde mental nunca poderá ser só um número ou um KPI. A mente humana, o comportamento e as emoções são realidades demasiado complexas para serem reduzidas a estatísticas. Uso os indicadores como ferramenta para convencer quem precisa de números para agir, mas nunca como o retrato completo da pessoa. Se algum dia chegarmos ao ponto de tratar a saúde mental das pessoas exclusivamente como um indicador, isso será sinal de que já não há esperança para a humanidade.
Que mudança gostaria de ver nas empresas portuguesas, por exemplo daqui a cinco anos, no que diz respeito à saúde mental?
É simples: gostaria que todas as empresas portuguesas, incluindo as PME [pequenas e médias empresas], que representam a maior fatia do tecido empresarial português, tivessem implementadas políticas concretas de bem-estar e saúde mental. Mais do que isso, gostaria que este tema deixasse de ser visto como um extra e passasse a ser encarado como um verdadeiro ativo estratégico do negócio.
E qual é a ambição da UKSI para acompanhar essa mudança?
Queremos ser catalisadores e agentes desta mudança. A ambição da UKSI é estar presente em todo o ecossistema empresarial português, das grandes empresas às PME e, a partir daí, expandir esta missão também além-fronteiras.
Se tivesse de convencer uma pessoa da liderança de uma empresa que ainda encara o investimento em saúde mental como um custo, qual seria o seu principal argumento?
Não tentaria convencer, afirmaria. E afirmo com toda a convicção: quem não o fizer, a médio prazo, deixará de ter uma empresa competitiva, com capacidade de crescimento e onde as pessoas queiram efetivamente trabalhar. Não é uma opção, é uma questão de sobrevivência no mercado.
«O ser humano é imprevisível, e gerir pessoas é, sem dúvida, a tarefa mais difícil em qualquer negócio, principalmente no maior negócio de todos, que é a nossa própria vida.»

Que mensagem gostaria que as pessoas nas empresas pudessem retirar da existência da UKSI?
Gostaria que a existência da UKSI fosse, para as pessoas, a prova de que é possível cuidar da produtividade e cuidar das pessoas ao mesmo tempo, que uma coisa não existe sem a outra. E que pedir ajuda, procurar apoio ou simplesmente parar para cuidar de si não é sinal de fraqueza, mas sim o primeiro passo para uma vida e um trabalho mais saudáveis.
Depois de vários anos a trabalhar na área da saúde mental corporativa, o que continua a surpreendê-la quando observa a relação das pessoas com o trabalho e com o seu próprio bem-estar?
O que mais me continua a surpreender são as próprias pessoas. O ser humano é imprevisível, e gerir pessoas é, sem dúvida, a tarefa mais difícil em qualquer negócio, principalmente no maior negócio de todos, que é a nossa própria vida.
Depois de tantos anos nesta área, seria fácil pensar que já vi de tudo, que já consigo antecipar reações. Mas não: continuo, ano após ano, a surpreender-me com a forma imprevisível como diferentes pessoas respondem aos mesmos contextos e aos mesmos desafios. É essa complexidade que, no fundo, torna este trabalho tão fascinante, e que me lembra todos os dias porque escolhi dedicar-me a cuidar de pessoas.
—

Ana Ruivo
Fundadora e chief executive officer (CEO) da UKSI, Ana Ruivo é licenciada em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de São João e formada em Gestão de Empresas pela AESE Business School. O seu percurso profissional combina a experiência na área da saúde com uma visão estratégica de liderança e desenvolvimento humano.
Foi pioneira e fundadora da primeira empresa portuguesa de saúde mental corporativa, tendo dedicado quase uma década a desafiar e a revolucionar o paradigma tradicional nas organizações portuguesas, promovendo culturas de trabalho mais humanas, conscientes e sustentáveis. Na UKSI, continua esta missão, apoiando empresas na implementação de estratégias de bem-estar, saúde mental e desenvolvimento humano.
Empresária, speaker e ativista pela saúde mental, Ana Ruivo participa regularmente em conferências, programas executivos e iniciativas académicas, sendo professora convidada na Porto Business School, no Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto (ISCAP) e na Universidade Europeia. O seu percurso empreendedor e o impacto do seu trabalho foram reconhecidos pela revista «Forbes».
Ana Ruivo é defensora da integração da saúde mental na estratégia das organizações e da promoção de modelos de liderança mais humanizados, sustentáveis e centrados nas pessoas.
Presença no LinkedIn aqui.

A UKSI é uma empresa portuguesa de saúde mental e bem-estar organizacional, sediada no Porto e fundada recentemente por Ana Ruivo. Propõe-se ajudar as organizações a prevenir problemas de saúde mental e a construir ambientes de trabalho mais saudáveis, através de um ecossistema que combina tecnologia e apoio humano, disponível 24/7 de forma anónima e confidencial.
No centro do ecossistema está o apoio psicológico, disponível tanto para acompanhamento contínuo como para resposta imediata em momentos de crise. A este apoio juntam-se acompanhamento nutricional e telemedicina, um employee assistance programme com apoio jurídico, financeiro e social, e ainda formação on-demand e conteúdos de wellbeing.
O nome UKSI tem origem em duas palavras finlandesas: uksi, «porta», e yksi, «um». A escolha não é acaso. Nasce da Finlândia, o país mais feliz do mundo, onde a fundadora da UKSI descobriu, ainda jovem, uma forma diferente de olhar para o bem-estar. Daí vêm os dois pilares da marca: o «um» de colocar as pessoas em primeiro lugar, e a «porta» que a UKSI quer ser, uma abertura sempre disponível para quem precisa de apoio.
«A questão não é quanto custa cuidar das pessoas. É quanto custa não cuidar.» É esta a premissa que a UKSI se propõe agora provar, não com discurso, mas com números: a marca lança um sistema próprio de métricas que permite às organizações acompanhar, em tempo real, o retorno concreto do investimento em saúde mental. Trata-se do verdadeiro fator diferenciador desta nova proposta no mercado português.
À frente do projeto está Ana Ruivo, com um longo percurso reconhecido na área da saúde mental corporativa em Portugal, e a promessa de dar sempre mais. Acompanha-a a mesma equipa: qualificada, experiente e habituada a trabalhar em conjunto para o sucesso do cliente.
