Partner e co-founder da UpSideUp, empresa portuguesa que aposta na inovação e no poder dos visuais, da comunicação, da tecnologia e da inteligência artificial (IA) para transformar o mundo, Daniel Lança Perdigão deixa-nos o seu olhar sobre 2026, sobretudo pensando na área do capital humano.
Texto: Redação «human» Foto: DeF
Numa área que tem vindo a conhecer muitas inovações como é a dos recursos humanos (RH), parece-lhe que 2026 poderá trazer algo marcante?
Sim. 2026 será um ano de viragem porque a IA generativa vai deixar de ser uma curiosidade bem usada por poucos e tornar-se a camada base, a infraestrutura de muitos processos de RH.
Vamos ver automatização mais inteligente, assistentes especializados a apoiar recrutamento, avaliação e formação, e decisões tomadas com mais dados e com menos burocracia.
Mas o mais marcante será a maturidade das equipas, pois vão perceber que a tecnologia não substitui os RH, permitindo ampliar a sua ação e o seu impacto, por exemplo, através da personalização.
É este salto mental que fará toda a diferença.
Como olha para a realidade portuguesa em RH?
Vejo um país em movimento, com progresso, mas ainda com ritmos muito diferentes.
Há organizações que já perceberam que tecnologia e competências digitais são vitais, e estão a reinventar as práticas de gestão de pessoas.
Outras continuam presas a modelos tradicionais, com processos longos e pouco apoio analítico.
A verdade é que esta evolução depende quase sempre da visão das lideranças, pois quando a liderança está preparada, os RH avançam; mas quando não está, tudo pode ficar estagnado.
A maturidade varia mais pela cultura da liderança e pela dimensão das empresas do que pelo sector.
O mais marcante será a maturidade das equipas, pois vão perceber que a tecnologia não substitui os RH, permitindo ampliar a sua ação e o seu impacto, por exemplo, através da personalização.
O que é que mais destaca em termos de inovação em Portugal relativo à gestão do talento?
Destaco três movimentos claros.
Um é a adoção crescente de plataformas com IA para recrutamento, triagem e avaliação.
Outro é o uso de analytics para medir comportamento, desempenho e potencial, algo que antes era quase intuitivo.
Finalmente, a preocupação com a experiência do colaborador, desde a integração até ao desenvolvimento contínuo.
Portugal começou tarde, mas está a acelerar. Vejo cada vez mais empresas a testar, errar, ajustar e evoluir, o que é um bom sinal.
Como compara a realidade portuguesa nesta área com outras, seja do espaço lusófono, seja de fora desse espaço?
Diria que Portugal está numa posição intermédia. Embora não conheça na primeira pessoa a realidade dos restantes países lusófonos, creio que estamos mais avançados do que a maioria, sobretudo pela maturidade digital das empresas e pela qualificação técnica de muitos profissionais.
No entanto, continuamos atrás de mercados que investem agressivamente em tecnologia e em capacitação contínua das equipas de RH, nomeadamente na Europa.
Falta-nos escala, foco em inovação e, sobretudo, decisão rápida. Quando decidimos, fazemos bem. Demoramos é a decidir.
Vê pontos de contacto significativos entre as várias geografias lusófonas em RH?
Sim. Há traços comuns que saltam à vista: a valorização de relações próximas e de confiança; a importância da estabilidade e da segurança no emprego; uma visão dos RH muito centrada nas pessoas e menos no processo.
A ligação cultural e a língua portuguesa facilitam seguramente a partilha de experiências e boas práticas, mas também existem diferenças grandes na disponibilidade tecnológica, na formação e no investimento.
A cultura aproxima, mas os contextos afastam.
As empresas já não têm como ignorar a convergência entre tecnologia, talento e estratégia. E 2026 não vai ser sobre adotar ferramentas, vai ser sobre repensar modelos de negócio e de trabalho.
O que é que mais o marcou em RH na sua carreira?
O que mais me marcou foi perceber, com o tempo e com muitos contextos diferentes, que a verdadeira mudança em RH não acontece num software novo, nem num processo revisto.
Acontece quando as pessoas começam a confiar umas nas outras e ganham coragem para trabalhar de forma diferente.
Vi equipas que pareciam estagnadas desbloquearem repentinamente, apenas porque alguém fez as perguntas certas.
Vi também como pequenos ajustes: um ritual novo, um momento de reconhecimento, uma conversa honesta podem transformar a energia de um departamento.
E há outra aprendizagem que ficou para sempre: a tecnologia amplifica ou otimiza o que existe, não cria o que falta.
Onde há cultura de aprendizagem, a inovação floresce. Onde não há, todos os esforços ficam pela metade.
E o que é que mais o motiva neste âmbito?
Motiva-me ver o poder que a IA e as novas metodologias têm para libertar as pessoas das tarefas repetitivas e dar-lhes espaço mental para pensar, criar e decidir melhor.
Gosto de entrar numa equipa e perceber que, com meia dúzia de ferramentas bem implementadas, se muda completamente a dinâmica de trabalho.
A motivação vem também do lado humano: ver alguém que se achava, entre aspas, pouco digital ganhar confiança e descobrir que afinal domina ferramentas que parecem complexas; ver um gestor a tomar melhores decisões porque tem dados claros em vez de suposições; ver equipas a cooperar com mais fluidez porque os processos são mais simples e transparentes.
No fundo, o que me motiva é saber que estou a ajudar as pessoas a ficarem mais capazes. E isso tem um impacto real na qualidade do trabalho e na vida profissional de cada um.
Há algum aspeto adicional que queira referir?
Sim. Portugal está num momento crítico. As empresas já não têm como ignorar a convergência entre tecnologia, talento e estratégia. E 2026 não vai ser sobre adotar ferramentas, vai ser sobre repensar modelos de negócio e de trabalho.
Isto implica três passos essenciais: rever processos que já não fazem sentido no mundo atual; capacitar equipas para trabalhar com fluência digital, não apenas com literacia básica; criar lideranças que compreendam tecnologia ao ponto de a integrarem nas decisões diárias.
É isto que vai distinguir quem lidera da maioria que segue tardiamente esta onda.
Não se trata de modas, trata-se de preparar os RH, e as organizações, para um contexto onde a mudança já não é exceção, é rotina.
Se soubermos ler este movimento, 2026 pode ser um ano decisivo para colocar Portugal uns passos mais à frente.
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A UpSideUp
Na UpSideup acredita-se na inovação e no poder dos visuais, da comunicação, da tecnologia e da inteligência artificial (IA) para transformar o mundo. Há um comprometimento em criar soluções inovadoras que impactem positivamente a vida das pessoas e o desempenho das organizações. Isto ao mesmo tempo que se valoriza a equipa de colaboradores, a qual é a força motriz do sucesso da empresa. Outro aspeto fundamental na UpSideUp é a importância da ética, da diversidade, da inclusão e da colaboração, numa empresa socialmente responsável, comprometida com a sustentabilidade ambiental.
