Raquel Brás, médica
Como os jovens olham para as questões da saúde

Um inquérito realizado pela Merck junto da geração Z (19-25 anos) e dos millennials (26-36 anos) destaca o desejo dos jovens de que seja encontrada uma cura para o cancro. Raquel Brás, assistente hospitalar de oncologia médica no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte – Hospital de Santa Maria, comenta esta e outras conclusões do documento.

Texto: Redação «human» Foto: DR

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Como surgiu este inquérito da Merck?

O inquérito surgiu no contexto do Ano Europeu da Juventude, declarado pela União Europeia. A iniciativa da Merck envolveu a realização de questionários a mais de 6.000 jovens em 10 países europeus, incluindo Portugal, com o objetivo de compreender de forma mais profunda as tendências, as preocupações e as perspetivas da juventude em diferentes temas.

Que comentário lhe suscita as preocupações com a saúde, nomeadamente com as doenças oncológicas, por parte dos mais jovens?

Essas preocupações têm provavelmente ganho maior destaque entre os mais jovens, a par com uma maior sensibilização para o estilo de vida e a adoção de hábitos saudáveis, através da comunicação social e também das redes socais. As doenças oncológicas nos jovens, embora representem apenas 5% de todos os diagnósticos de cancro, podem significar um diagnóstico de uma doença agressiva e com consequências importantes na vida de uma pessoa e na sua família, pelo que é esperado que tenha uma significativa carga negativa, suscitando preocupação, mas também esperança da descoberta de uma cura.

Pode dizer-se que nos mais jovens há uma maior consciencialização para este tema?

A doença oncológica é uma preocupação menos frequente nos jovens do que em faixas etárias mais avançadas. No entanto, creio que tem havido uma maior consciencialização do tema nos jovens, principalmente, como disse, pela comunicação social, pelas redes sociais, mas também com o aumento do número de diagnósticos de cancro na população geral, podendo levar a que mais jovens tenham familiares afetados por cancro.

As preocupações ambientais também são destacadas no inquérito, e há uma notória consciencialização para elas, seja da população em geral (com destaque para os mais jovens), seja no mundo empresarial. Poderão as questões ligadas à saúde também vir a ganhar esse destaque, nomeadamente no que diz respeito a doenças oncológicas?

As questões ligadas à saúde, e em especial as doenças oncológicas, têm tido uma importância crescente na vida da nossa população, a par com as preocupações ambientais, espelhado por um aumento da consciencialização para temas de saúde, campanhas de prevenção, programas de televisão, entre outros.

Nas empresas tem vindo a surgir em força a questão da saúde mental, parecendo inclusive que gera mais preocupações do que outros âmbitos da saúde. Encontra alguma explicação para esta tendência?

Tem havido um especial destaque da saúde mental, que pode ser atribuído a vários fatores. Por exemplo, há um reconhecimento dos ambientes de trabalho como geradores de stresse, com pressão e exigências elevadas e constantes, que podem contribuir para ansiedade e depressão. Mais recentemente, a pandemia a Covid-19 trouxe um maior destaque para esta questão, com a transformação a que assistimos no ambiente de trabalho, nomeadamente a transição para o trabalho remoto. O facto de ser mais comum a discussão deste tema ajuda a quebrar o estigma em torno da saúde mental, contribuindo para uma maior abertura para a tomada de medidas a nível da prevenção e do tratamento.

As preocupações dos jovens expressam uma consciência crítica para os desafios da atualidade. Um dos pontos que achei interessante foi a preocupação com o papel das redes sociais e das fontes de informação.

Fala-se muito de prevenção neste caso da saúde mental. E em termos de problemas oncológicos, como se poderá atuar em termos de prevenção no mundo do trabalho?

A prevenção da doença oncológica pode ser primária (antes do seu aparecimento), secundária (a doença é detetada e tratada precocemente) e terciária (controlo da doença já diagnosticada e prevenção de complicações). No ambiente de trabalho, a prevenção da doença oncológica deve assentar em estratégias que reduzam a exposição a fatores de risco conhecidos (por exemplo, tabaco, amianto, radiação, etc), que promovam um estilo de vida saudável (por exemplo, alimentação equilibrada, incentivo a exercício físico regular, cessação tabágica) e que facilitem o acesso a medidas de deteção precoce (por exemplo, rastreios).

Como perspetiva a nossa sociedade nos próximos anos na relação com as questões oncológicas?

Na última década, houve importantes avanços no tratamento de doenças oncológicas, como o cancro do pulmão, o melanoma e o cancro da mama, principalmente em fase avançada, alterando o prognóstico para muitos doentes. No entanto, mantém-se vários desafios, tanto a nível do tratamento como do rastreio e diagnóstico precoce. Um dos focos mais importantes será na prevenção e deteção precoce, mas também no controlo a médio-longo prazo de vários tipos de tumor, começando-se também já a falar de cura ou remissão em fases avançadas em alguns contextos.  Por fim, outro desafio que a nossa sociedade terá de enfrentar, não menos importante, é o acesso aos tratamentos oncológicos, com o envelhecimento da população, o aumento do número de diagnósticos de cancro e o aumento do custo dos fármacos novos.

Acredita que o progresso científico poderá inverter a tendência de crescimento das doenças oncológicas?

É o progresso científico que nos permite identificar causas e fatores de risco e desenvolver novos tratamentos eficazes para a doença oncológica. Com o desenvolvimento científico, ao atuarmos na prevenção, poderemos diminuir o aparecimento de novos casos de cancro. Por outro lado, com a implementação de rastreios e com um maior acesso a cuidados de saúde (principalmente aos cuidados primários), poderá haver um aumento do número de diagnósticos em fases precoces, permitindo a cura e a diminuição das sequelas da doença oncológica. Também com os avanços científicos no tratamento da doença avançada, poderemos ter cada vez mais sobreviventes de cancro, aumentando o envelhecimento da população e o aparecimento de segundos, terceiros ou quartos casos de diagnóstico de cancro na mesma pessoa ao longo da sua vida. Portanto, é difícil prever se poderemos eficazmente diminuir a tendência de crescimento das doenças oncológicas, mas provavelmente haverá uma mudança significativa na fase e na forma como as doenças se irão manifestar e na probabilidade de cura ou de controlo.

Voltando ao inquérito da Merck, como olha para as gerações mais jovens e as suas preocupações, tendo em conta os resultados?

Creio que as preocupações dos jovens expressam uma consciência crítica para os desafios da atualidade. Um dos pontos que achei interessante foi a preocupação com o papel das redes sociais e das fontes de informação. Vejo estes resultados de forma positiva e destaco a confiança que os jovens portugueses mantêm nos profissionais de saúde, tendo em conta o volume de informação a que se encontram expostos pelos meios digitais. Outro tema que achei bastante relevante foi a importância que os jovens dão à saúde física e emocional no local de trabalho e ao equilíbrio da vida profissional com a vida pessoal. Estas preocupações podem vir a alterar a nossa relação com o trabalho. No global, os resultados deixaram-me otimista e confiante no contributo das gerações mais jovens para o desenvolvimento de uma sociedade mais motivada, aberta e disponível para a resolução desses problemas, através do incentivo de ações positivas e maior participação cívica.

Um dos meus maiores desafios profissionais é a gestão da informação, desde a constante atualização científica até à comunicação no dia-a-dia com os doentes e as famílias. A inovação científica tem sido bastante acelerada nos últimos anos e a pressão constante para nos mantermos atualizados é desafiante.

Fazendo parte destas gerações, identifica-se com muitas das preocupações que nos são mostradas pelos resultados do inquérito?

Sim, claro que sim. O inquérito mostrou-nos que os temas que mais preocupam os mais jovens são ligados à saúde, à era digital e ao futuro, com questões bastante transversais na sociedade atual. Uma das preocupações com que me identifico é com o futuro dos sistemas de saúde, principalmente com a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde e a importância de manter universal o acesso à saúde e a cuidados de qualidade. 

O que mais a motiva profissionalmente por esta altura?

Para além da vontade de ajudar o próximo, tão presente na profissão médica, a oncologia é uma área em constante inovação e um desafio complexo e estimulante. A sua abordagem multidisciplinar, tanto a nível da prática clínica, com o envolvimento de várias especialidades médicas e não médicas, assim como a nível de investigação científica, aproximando diversos ramos da ciência e da engenharia, é outra das vertentes que me fascinam e motivam.

Quais são os seus maiores desafios profissionais?

Um dos meus maiores desafios profissionais é a gestão da informação, desde a constante atualização científica até à comunicação no dia-a-dia com os doentes e as famílias. A inovação científica tem sido bastante acelerada nos últimos anos e a pressão constante para nos mantermos atualizados é desafiante. Noutra vertente, a mudança a que temos assistido na nossa sociedade relativamente ao acesso à informação (e desinformação) trazem desafios novos na comunicação com os doentes e seus familiares, principalmente em oncologia. Um outro tema é a questão do acesso aos medicamentos e à saúde, que creio que será cada vez mais relevante no futuro próximo.

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Nota: saber mais sobre o inquérito realizado pela Merck junto da geração Z (19-25 anos) e dos millennials (26-36 anos) aqui.

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»» Raquel Brás é assistente hospitalar de oncologia médica no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte – Hospital Santa Maria, Lisboa, desde 2023. É membro da Ordem dos Médicos desde 2016, da European Society of Medical Oncology desde 2019, da Sociedade Portuguesa de Oncologia desde 2019 e do Grupo Português de Estudos de Sarcomas desde 2023. Fez o seu projeto de investigação do internato médico na área de Genómica em Sarcomas e o estágio de investigação clínica na Unidad de Ensayos Clínicos Fase I (Early Phase Program), no centro START do Centro Integral Oncológico Clara Campal do Hospital Universitario HM Sanchinarro em Madrid, Espanha em 2022. O internato médico em oncologia médica foi concluído em 2023.

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»» A Merck é a empresa farmacêutica e química mais antiga do mundo. O seu objetivo é o progresso das pessoas em todo o mundo. É por isso que examina tudo cuidadosamente, faz perguntas e pensa no futuro. Existe há mais de 350 anos e os seus principais acionistas ainda são descendentes de Friedrich Jacob Merck, o homem que a fundou em Darmstadt, na Alemanha em 1668. Desde então, tornou-se uma empresa verdadeiramente global, com cerca de 53 mil colaboradores em 66 países a trabalhar em soluções e tecnologias inovadoras. Em 2017, investiu 2,1 mil milhões de euros em investigação e desenvolvimento (I&D). Com a denominação Merckna maior parte dos países onde opera, tem como exceções os Estados Unidos e o Canadá; aí opera como EMD Serono no sector dos biofármacos, como MilliporeSigma no sector de life science e como EMD Electronics no sector do negócio de materiais.