Entrevistas
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Álvaro Nascimento
A lusofonia como espaço de oportunidades

Acreditando na importância crescente da formação especializada em contexto internacional, a EGE - Atlantic Business School está a privilegiar interligações empresariais cada vez mais estreitas, nomeadamente com países lusófonos em expansão económica, como o Brasil e Angola, e também com a vizinha Espanha. Assim, disponibiliza o «MBA Internacional» e o «MBA Atlântico», que nas palavras de Álvaro Nascimento, director da EGE, «permitem a construção de uma rede de diplomacia económica que ajuda as empresas a expandir-se além fronteiras, reforçando as suas vantagens competitivas e aumentando a probabilidade de sucesso».

Por Ana Leonor Martins

Num contexto de concorrência cada vez mais feroz, e à escala global, como encara a importância da formação dos quadros superiores?
A inovação é apontada como um dos factores-chave para o sucesso empresarial, contribuindo para a competitividade das empresas e permitindo-lhes alcançar posições de liderança nos mercados. Tradicionalmente, a inovação está associada a processos tecnológicos inovadores, no que respeita ao processo produtivo, ou à introdução de novos produtos ou serviços. Raramente se associa a inovação à gestão empresarial propriamente dita, seja no que respeita à forma da organização, seja no que respeita às melhores práticas e a mecanismos para obter o compromisso dos trabalhadores e o alinhamento com as estratégias da empresa. A inovação na gestão, como gostaria que ficasse conhecida, presume um conhecimento aprofundado das temáticas da organização, nas mais variadas vertentes, que vão desde a estratégia até à compreensão e à correcta interpretação dos movimentos sociais e políticos e da conjuntura económica.
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Inovar na gestão requer profissionais qualificados, capazes de compreender a organização nas suas múltiplas dimensões e na sua relação com a envolvente. Os programas de formação de executivos, desenhados para proporcionar esta aprendizagem e, ao mesmo tempo, configurados como espaços de intercâmbio de experiências profissionais e de aproximação à sociedade e à cultura servem exactamente o propósito de criar um ambiente propício ao empreendedorismo na gestão, condutor de inovações que aumentam a competitividade das empresas num mundo cada vez mais global.
A própria formação terá que adaptar-se a um mundo de negócios cada vez mais complexo e dinâmico. Será que vai continuar a haver espaço, pelo menos com resultados práticos satisfatórios, para a formação tradicional?
O ensino da gestão e da economia tem sofrido profundas transformações no passado recente. E muitas outras se avizinham. A reforma introduzida por Bolonha ao nível da formação académica de licenciatura e mestrado foi um dos factores que induziu a mudança. Também a progressiva tomada de consciência sobre a importância e os objectivos do ensino no mundo dos negócios têm contribuído para alterar o perfil dos programas, substituindo os modelos tradicionais. Desde logo, a partir do momento que coloca a empregabilidade como elemento-chave da formação de primeiro ciclo - isto é, das licenciaturas -, Bolonha abre espaço para que aos vários níveis de formação correspondam diferentes ambições em termos de percursos profissionais. Também cria as condições propícias para a formação ao longo da vida, de carácter mais específico, de actualização de conhecimentos. Actualmente, com tempos de formação encurtados, as licenciaturas de Bolonha concentram-se em dotar os estudantes de ferramentas que os ajudem a pensar e a trabalhar de forma autónoma. Coloca-se o ênfase numa abordagem mais conceptual - e não de cariz mais prático ou profissional -, capaz de criar profissionais autónomos, com espírito crítico, capacidade de trabalhar em grupo e dotados de iniciativa. E isto é uma tremenda mudança face às licenciaturas tradicionais, já que reclama trabalhar adicionalmente nos alunos as competências transversais, ou aquilo que no mundo dos negócios é conhecido por 'soft skills'. Ao mesmo tempo, exige que as universidades se aproximem das empresas e da comunidade externa, para poder exercer este desenvolvimento em ambiente real.
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Também, os mestrados não vêem substituir o lugar das antigas licenciaturas. O mundo real é muito distinto e os alunos têm 'backgrounds' muito diferenciados. Contrariamente ao passado, os mestrados actualmente têm um carácter mais especializado. Nas áreas de gestão os alunos já não vêm maioritariamente de uma licenciatura em ciências económicas e empresariais. Com percursos mais abertos a montante, os mestrados funcionam como espaços para a preparação de técnicos qualificados em áreas específicas, que vão desde o 'marketing' às finanças, passando pela gestão de operações, entre tantas outras valências das empresas. Um mestrado que adopte os princípios de Bolonha prepara profissionais mais capazes do que as licenciaturas tradicionais, ainda que num espaço de abrangência mais restrito. Aquilo que se perde em abrangência é ganho em profundidade.
E onde se integram as escolas de negócios?
Neste contexto, a formação ao longo da vida ganha uma nova perspectiva e reclama das escolas de negócios a necessidade de serem capazes de integrar o conhecimento acumulado na universidade e nos percursos profissionais. É essencial conferir uma visão global da gestão, sendo capaz de reflectir sobre os problemas da organização a partir das experiências de vida - o intercâmbio e a partilha de vivências diferenciadas - e dos conhecimentos técnicos adquiridos - que por força do tempo necessitam de ser actualizados com as inovações. A formação de quadros ao longo da vida afasta-se fortemente dos anteriores paradigmas das pós-graduações, em que dominam as abordagens conceptuais e técnicas, surgem agora os espaços de reflexão auxiliada por professores, investigadores e profissionais com fortes ligações ao mundo empresarial. Em síntese, trata-se de algo capaz de reflectir sobre os problemas das empresas e dos negócios, numa perspectiva integradora de conhecimento. Por exemplo, o problema da gestão da linha produção é muito mais do que uma questão de operações e logística.
Do ponto de vista dos empresários, acredita que o «olhar além-fronteiras» que estão a fomentar pode ser a resposta para fazer face à crise e assegurar a sobrevivência?
Esse «olhar além-fronteiras» é uma forma de procurar novas oportunidades em novos mercados. Quando os mercados locais se mostram incapazes de responder à nossa ambição e à nossa estratégia, a expansão além fronteiras significa dar continuidade a sonhos de crescimento. Muitas vezes, essa expansão é fundamental para alcançar a massa crítica necessária para suportar processos de inovação - incluída a área da gestão - que de outro modo não seriam possíveis e, como tal, limitariam os ganhos de competitividade das empresas. Mas o olhar além-fronteiras pode significar trazer o mercado para dentro das fronteiras. Em vários casos é possível aumentar as actividades ou ter uma presença forte no mercado global com estratégias a partir de Portugal, ou fortemente concentradas no território nacional. Ao mesmo tempo, esta presença forte pode exercer um efeito de arrasto sobre outras competências a montante e a jusante na cadeia de valor. Um tecido industrial forte desenvolve oportunidades para uma teia de relações empresariais que contribui para o emprego e para o crescimento económico.
Têm na EGE dois MBAs focados num contexto internacional. Que especificidades os distinguem?
Um é um MBA executivo - o «MBA Internacional» -, desenhado para permitir formar quadros de empresas, enquanto se mantêm activos na sua via profissional. Tem um programa em regime pós-laboral, que permite aos alunos manter a sua actividade empresarial, e tem a duração de 15 meses. A começar, o prazo mais longo deste programa, por comparação com programas em 'full-time', decorre exactamente da necessidade de distribuir o esforço por mais tempo e permitir ao aluno uma carga de trabalho razoável, compatível com as funções que continua a desempenhar na empresa. Naturalmente, o formato do programa condiciona a forma como o mesmo se pode tornar internacional. Deste modo, o MBA Internacional, aposta na internacionalização por duas vias: Por um lado, tendo a ESADE Business School, de Barcelona, como um parceiro activo no programa, participando na leccionação das disciplinas e trazendo a sua excelência e a sua experiência internacional para dentro do programa. Os alunos têm assim um espaço de intercâmbio de experiências, moderado por professores estrangeiros que têm uma visão distinta da visão portuguesa dos negócios. Por outro lado, o programa apresenta duas missões internacionais ao estrangeiro - actualmente a São Paulo, no Brasil, com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e a Barcelona, em Espanha, com a ESADE. É uma forma de permitir aos alunos conhecer as realidades da sociedade, da cultura, da economia e dos negócios destes países em períodos de tempo curtos e compatíveis com a sua vida profissional.
E o outro programa?
O outro programa é um MBA em 'full-time' - o «MBA Atlântico» -, que ancora no mesmo princípio de que fazer negócios no mundo contemporâneo, na era da globalização, requer uma visão global do mundo e, sobretudo, das especificidades dos países em que se quer actuar. O facto de acolhermos alunos com disponibilidade de tempo permite-nos colocá-los em diferentes ambientes, vivendo a geografia e as especificidades locais e, por essa via, construir um capital de conhecimento que de outro modo seria impossível alcançar. Esta longa vivência em diferentes blocos geográficos - e no caso do «MBA Altântico» os blocos são a Europa, a África Austral e a América do Sul - permite, além do mais, construir uma sólida rede de diplomacia económica que pode ser uma importante vantagem competitiva no futuro para as empresas nas quais venham a trabalhar. O «MBA Atlântico» é um programa marcado por esta diáspora. O seu formato torna-o apelativo para jovens profissionais em início de carreira e que querem catapultar-se para posições de destaque em empresas com ambições e presença internacional. A associação com universidades em cada um dos blocos - a Católica do Porto, em Portugal, a Católica de Angola, em Luanda, e a Pontifícia Católica, em São Paulo , no Brasil - reforça o espírito de rede e de aprendizagem mútua. É um programa conjunto com alunos escolhidos nas três geografias.
Como é feita a ligação ao mundo empresarial?
Decorre das explicações sobre o que são os dois MBAs da EGE: a construção de uma rede de diplomacia económica que ajude as empresas a expandir-se além fronteiras, reforçando as suas vantagens competitivas e aumentando a probabilidade de sucesso. A ligação ao mundo empresarial tem duas vertentes. Primeiro, através do convite estendido a empresários e gestores para partilharem os seus conhecimentos, em sala de aula, com os nossos alunos. Existem inúmeros gestores capazes de sintetizar os seus conhecimentos e articulá-los com o conhecimento académico. As ligações que muitas vezes estabelecem com os professores da universidade permitem, em muitos casos, estruturar programas partilhados, com fortes benefícios para os professores, os alunos e, também, para as empresas. Este processo de partilha é essencial. Segundo, as empresas integram o conselho de orientação estratégica da escola, auxiliando no seu posicionamento e explicitando as suas necessidades. Assim, sentimo-nos mais úteis ao serviço da comunidade empresarial, funcionando como parceiros no fornecimento do conhecimento na área da gestão.
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A este propósito, é interessante notar que a opção por uma escola de negócios fora do ambiente académico tradicional - como é o caso da EGE -, com parceiros empresariais - como a Associação Empresarial de Portugal -, permite que esta transferência de conhecimento se processe de forma mais célere e mais ajustada às necessidades empresariais. Os empresários podem encontrar na escola um espaço que dá eco às suas preocupações e os pode auxiliar no reforço dos seus factores de competitividade - inovação na gestão.
Acredita que os gestores de hoje, e sobretudo de amanhã, têm consciência da importância deste tipo de especialização?
Começam a ter. Em Portugal, a formação continuada nas áreas da gestão tem ainda um longo percurso pela frentre. Estamos longe das estatísticas que se verificam noutros países, a começar por aquele que nos é geograficamente mais próximo - Espanha. Talvez por isso o país, em particular as empresas, tenha níveis tão baixos de inovação na gestão. De facto, um dos principais 'handicaps' continua a ser a insuficiente qualidade da gestão. Com as novas gerações de gestores, creio que o cenário mudará e as pessoas ganharão consciência progressiva desta necessidade. Mas os tempos actuais são de crise e as empresas cortam, primeiro, nos investimentos sem rentabilidade imediata. Ainda que erradamente, porque comprometem o futuro.
Por quê a aposta no espaço da lusofonia?
Porque nos pareceu natural, dadas as ligações com os nossos parceiros universitários, e o facto de entendermos que havia uma oportunidade por explorar. Estavam reunidas as condições naturais: a rede de Universidades Católicas de expressão portuguesa é uma realidade e funciona como forte suporte institucional do projecto. A partilha dos mesmos ideais e a convergência de interesses permitiram estruturar um projecto de partilha equilibrada de responsabilidades, em que todos se encontram empenhados, procurando garantir o seu sucesso, através das ligações que consegue estabelecer localmente com as empresas e a restante comunidade. O espaço da lusofonia congrega muitas oportunidades para os negócios. O passado histórico comum e a partilha da mesma língua são o maior activo que pode ser explorado. Numa visão moderna do mundo, a cooperação entre estes três países, que como tem sido frequentemente referido integram o triângulo virtuoso do Atlântico, tem condições para se desenvolver e afirmar a pujança das suas economias. Ao mesmo tempo, podem ser lançadas as âncoras para abrir às empresas as portas de entrada nos negócios dos três continentes: Europa, América do Sul e África.

28/05/10





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