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O que significa para si a tecnologia - nomeadamente a tecnologia ligada à informação e à comunicação - colocada ao serviço da formação?
Significa eficácia e democratização do acesso ao conhecimento. A Internet é um dos grandes marcos da História, uma vez que colocou os 'bits' ao serviço da humanidade, facilitando a comunicação e o acesso às fontes de informação e conhecimento. Quando colocamos estas tecnologias ao serviço da aprendizagem - prefiro o termo «aprendizagem» em vez de «formação» -, abre-se um mundo novo no qual ainda estamos na fase da infância. As tecnologias de informação e comunicação permitem às organizações melhorar a forma como disseminam o conhecimento através da sua codificação e da disponibilização em repositórios digitais. Permitem também o acesso a especialistas ou centros de competência, aos quais podem ser colocadas questões, ou a marcação de uma sessão de trabalho à distância, para resolução de um problema ou a resposta a um desafio da organização. Desta forma, torna-se os processos de aprendizagem mais eficazes por estarem centrados nas necessidades específicas dos aprendentes, isto é, de quem aprende. Numa perspectiva mais global, estamos também a permitir o acesso ao conhecimento a pessoas que não teriam outra forma de acesso, contribuindo decisivamente para a sua democratização.
Esta sua percepção tem mudado muito ao longo dos últimos anos?
Tem essencialmente evoluído no sentido da aprendizagem mais colaborativa, mais participativa, em resultado do desenvolvimento das tecnologias «web 2.0». Vivemos uma primeira fase, que se iniciou na segunda metade da década de 90 do século passado, em que o modelo estava focado na distribuição 'top-down' de conteúdos de aprendizagem. Bastava um servidor com uma plataforma de 'e-learning' com maior ou menor riqueza funcional e um conjunto de conteúdos digitais de aprendizagem para termos um ambiente de aprendizagem preparado. Era a fase do 'broadcast' de conteúdos. Nos últimos anos temos assistido ao desenvolvimento de um modelo mais colaborativo, quer na concepção e no desenvolvimento dos conteúdos digitais, quer na dinamização dos processos de aprendizagem. O tutor reaparece a mediar as experiências de aprendizagem proporcionadas pela interacção dos formandos com os conteúdos, com os outros formandos e com o próprio tutor. Estes novos ambientes virtuais de aprendizagem estão a mostrar-se ainda mais eficazes.
Faz sentido para si falar actualmente de 'e-learning'? Ou já estamos muito para além disso?
Acho que está a deixar de fazer sentido. O título do último livro do Marc Rosenberg, um dos gurus mundiais nesta área, é exactamente «Beyond e-Learning». Estamos numa fase em que o 'e-learning' é muito mais do que «e-formação», que se centra nas necessidades do posto de trabalho, em que estamos a redefinir o 'blended learning', a aprendizagem é menos centrada em cursos e mais no conhecimento - aprendizagem mais informal -, em que os percursos de aprendizagem dependem das necessidades de quem aprende. A tecnologia está a assumir um papel secundário, estando cada vez mais embebida nos processos de aprendizagem, pelo que começa a fazer sentido falar de «Learning 2.0» ou simplesmente «Learning», se quisermos utilizar a língua inglesa, ou «Aprendizagem 2.0 em Português».
Como poderá ser a evolução da formação das pessoas - ou, como diz, da aprendizagem -, nomeadamente em termos de desenvolvimento de competências para o seu trabalho nas organizações? Isto quer ao nível da aprendizagem mais tradicional, quer ao nível daquela que se socorre das novas tecnologias.
Hoje, os modelos de aprendizagem privilegiam o recurso a vários meios de distribuição: a sala, o ambiente virtual 'on-line' que permite o acesso a conteúdos de aprendizagem digitais, ferramentas de comunicação assíncronas (fóruns de discussão) e síncronas ('chat' e sala virtual), assim como as tecnologias «web 2.0» ('blogs', 'wikis', 'tagging', pesquisa) e o acesso a especialistas. Este é o 'blended learning', ou aprendizagem multi-meios, dos nossos tempos. É com recurso a tais dispositivos que as pessoas desenvolvem as suas competências nas organizações. Importa também referir a importância crescente dos dispositivos móveis como o iPhone e o iPod da Apple e os 'smartphones' produzidos por diferentes fabricantes. De realçar também os recentes leitores de 'e-books' que, com ecrãs de dimensões mais generosas, podem permitir o acesso a conteúdos de aprendizagem digitais.
Como é o seu trabalho actual em termos de aplicação da tecnologia na aprendizagem e quais são os grandes desenvolvimentos que tem testemunhado por estes tempos?
Nos últimos tempos, tenho assistido a uma forte tendência para o 'outsourcing' destes processos. As organizações mais maduras procuram parceiros com fortes competências tecnológicas e pedagógicas que conheçam bem a gestão dos processos de formação, para que se possam concentrar na produção de conteúdos de aprendizagem que sirvam de base ao desenvolvimento de conteúdos digitais. Desta forma, optimizam custos de gestão da aprendizagem, centram as suas energias na gestão do negócio e dos processos que o suportam e entregam a terceiros a operacionalização destes processos com suporte na tecnologia. Estes modelos podem funcionar em 'hosting' - infra-estrutura com 'hardware' e 'software' dedicada a uma organização - ou em «Software as a Service (SaaS)» - infra-estrutura com 'hardware' e 'software' partilhada por várias organizações com base na mesma versão do 'software'.
Como vê o nosso país nesta área, em comparação com o que se faz em países tidos como os das melhores práticas?
Tenho dito várias vezes que em Portugal existem dois campeonatos nesta área: a «Liga dos Campeões» e a «Liga Portuguesa». Na «Liga dos Campeões» temos organizações maduras na utilização das tecnologias na aprendizagem e que estão a caminhar para o «Learning 2.0». São organizações que recorrem à tecnologia como suporte de um volume significativo de formação anual - normalmente superior a 25% - ou que já estão a integrar a tecnologia em todas as acções formativas que desenvolvem; isto é, todos os cursos continuam para além da sala de formação num 'campus' virtual - ambiente virtual de aprendizagem. Estas organizações estão ao nível das melhores práticas internacionais na área. São exemplos de organizações neste campeonato o Banco BPI, o Banco Espírito Santo (BES), a Caixa Geral de Depósitos, a DGCI/ DGITA/ DGAIEC da Administração Tributária do Ministério das Finanças e algumas das maiores universidades portuguesas. Na «Liga Portuguesa» temos os restantes casos no nosso país e ainda temos muito trabalho pela frente para trazer muitas empresas e organizações da administração pública para estes campeonatos.
Como se posiciona a Novabase? Inclusive tendo em conta o que disse, que pressupõe a existências de grandes 'gaps' em termos do tecido empresarial, da administração pública, das universidades, de outras instituições, isto no que concerne ao recurso às novas tecnologias para a aprendizagem.
A Novabase tem uma oferta muito consolidada nesta área, com mais de 150.000 utilizadores das suas soluções em Portugal e mais de 300 conteúdos digitais de aprendizagem produzidos nos últimos anos. Os projectos têm estado focados na construção de soluções integradas de aprendizagem, incluindo a implementação dos ambientes virtuais de aprendizagem, a concepção e o desenvolvimento de conteúdos e a consultoria de suporte à gestão da mudança nos centros de formação dos nossos clientes. Temos vindo nos últimos anos a alargar a intervenção, integrando nas nossas soluções de aprendizagem as componentes de gestão da formação presencial onde desenvolvemos uma aplicação específica que designámos por «SGCBL - Sistema de Gestão do Blended Learning» e que já está a ser utilizado com sucesso por várias empresas e organizações em Portugal. Este alargamento passa também pela componente de gestão do talento, integrando a avaliação de desempenho e os planos de desenvolvimento individuais. Actualmente, os planos de desenvolvimento já não são mais o resultado de um questionário de avaliação de necessidades de formação, mas sim da avaliação de desempenho anual. Em relação ao mercado, existem claramente grandes 'gaps', como referi, mas temos muito para fazer de forma a trazer para estes campeonatos grande parte das organizações portuguesas. E aqui o governo pode ajudar, incentivando as pequenas e médias empresas (PME) a recorrer a este tipo de soluções.
Acha que as novas gerações, nomeadamente aquela que agora está a entrar no mercado de trabalho, vão conhecer um novo ambiente na formação? Ou poderá mesmo ajudar a criar esse ambiente?
Sim, claramente. A nova geração que está agora a entrar no mercado de trabalho é a geração digital. Já nasceu no mundo digital, no meio dos 'bits'. São nativos digitais. Têm dificuldade em entender o mundo antes da Internet, do 'e-mail', das mensagens instantâneas. Temos de perceber que são diferentes dos imigrantes digitais na forma como lidam com as tecnologias de informação e comunicação. É esta geração que vai consolidar a mudança que se iniciou na segunda metade da década de 1990 na área da aprendizagem.
E no seu caso, como perspectiva o futuro desta área?
Temos muito para fazer ao nível da adopção da «Aprendizagem 2.0» nas empresas, na administração pública e nas escolas, tirando partido também da crescente proliferação de dispositivos móveis que vão facilitar o acesso ao conhecimento. Especialmente ao nível do sistema educativo que tem de tirar o máximo das tecnologias que o Plano Tecnológico da Educação tem, e de forma muito positiva, introduzido nas escolas. Importa agora fazer a reformulação das práticas pedagógicas, embebendo a tecnologia nos processos de ensino /aprendizagem com um enorme envolvimento da comunidade educativa - professores, alunos, famílias e autoridades locais. Neste âmbito, destaco uma das conclusões do manifesto elaborado por um conjunto de personalidades representantes dos países membros da União Europeia no âmbito do Ano Europeu da Criatividade e Inovação, o ano de 2009: «reinventar o sistema de ensino, tornando-o mais orientado para o pensamento criativo e a aprendizagem pela prática». |