Entrevistas
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Sérgio Sousa
Um olhar privilegiado sobre a gestão das pessoas nas organizações

Com passagens por empresas de várias dimensões e em diversos setores, como diretor de recursos humanos, Sérgio Sousa, atualmente na Kelly Services, tem uma experiência multifacetada em termos de gestão do capital humano. A ligação ao meio universitário também contribuiu para o valor acrescentado dessa experiência, fazendo com que o seu olhar sobre a gestão das pessoas nas organizações seja privilegiado.

Por António Manuel Venda

Já foi diretor de recursos humanos de várias empresas, de diversos setores. Há diferenças para o cargo que tem agora, de diretor de recursos humanos de uma empresa essencialmente da área de recursos humanos?
A essência da função é a mesma em qualquer setor: garantir processos de gestão de recursos humanos eficazes, focados no cliente interno, e um bom ‘coaching’ das chefias na sua atuação enquanto gestores de pessoas nas suas próprias equipas. O sucesso depende muito em desenvolver estas prioridades no contexto específico de cada empresa.
Como é que a Kelly Services tem contribuído para o seu desenvolvimento como profissional?
Numa empresa de recursos humanos, onde a generalidade dos colaboradores – os clientes internos – são profissionais da área, o nível de exigência da gestão de recursos humanos é muito elevado. Adicionalmente, é fundamental que as práticas de excelência em recursos humanos para o cliente externo se iniciem nos processos internos. Tudo isto implica uma atenção redobrada à qualidade dos serviços de gestão de recursos humanos internos e ao constante desenvolvimento pessoal e profissional.
E da sua parte, o que pensa que tem aportado à Kelly Services seja pela sua experiência, seja pelo ‘know-how’, neste último aspeto, tendo até em conta a sua experiência académica?
Creio que a experiência em vários setores de atividade auxiliam um ‘out of the box’ que é útil para novas perspetivas de desenvolvimento. Os cerca de 20 anos como cliente da generalidade dos serviços prestados pela empresa poderão também auxiliar na discussão de processos operacionais/ de negócio.
Como conjuga o trabalho nas empresas com o ensino universitário?
Ambas as áreas, empresarial e académica, usufrem mutuamente. A empresa encontra vantagens na proximidade em relação à investigação, às parcerias institucionais, aos próprios alunos, tantas vezes já profissionais da área. Por outro lado, na academia obtém-se uma ótima conjugação entre o concetual e a aplicação prática, que enriquece os programas e o valor destes para os alunos.
É um equilíbrio difícil de fazer, é mais um desafio ou é afinal uma sorte para si dispor de tal possibilidade?
Uma vida profissional dupla é um esforço acrescido, e um desafio constante, para manter um bom nível de desempenho simultâneo, em ambas as áreas. Mas é um desafio já com muitos anos de vivência, do qual não há qualquer interesse em abdicar.
Desta sua experiência, que análise faz de ligação entre as universidades e as empresas, há uns anos um tema muito falado, sobretudo como uma necessidade urgente, algo que se devia concretizar rapidamente, mas agora tão esquecido? Será a crise que tem feito que assuntos como estes saiam, digamos assim, da agenda?
Na minha opinião, essa ligação tem vindo a desenvolver-se, quer no que se refere tanto às maiores Universidades de Lisboa e Porto, quer em zonas mais periféricas, como Aveiro, Minho ou Covilhã, onde as universidades têm demonstrado não só um enorme dinamismo de parceria como o mundo empresarial mas também em certas áreas de especialização, e têm conseguido uma clara diferenciação e um destaque no panorama nacional. Mas há ainda um caminho a percorrer, em especial de maior iniciativa das empresas em aproveitarem a investigação para a aplicação prática, a inovação e o desenvolvimento. Tempos menos bons podem até aproximar universidades e empresas, na busca de suporte mútuo e maximização de sinergias.
A crise atual, que impacto tem tido na atividade da Kelly Services?
A crise exige de cada um de nós o seu melhor, todos os dias. Incrementar os esforços de todos os colaboradores, operacionais ou de áreas de ‘staff’, seja numa ótica comercial, seja do desenvolvimento de competências, é condição para as empresas responderem de forma eficaz e eficiente às constantes mudanças. A Kelly Services tem apostado com sucesso neste caminho e tem uma ótima equipa alinhada com estas exigências.
E no seu trabalho na empresa, tem impacto?
Os departamentos de recursos humanos têm responsabilidades acrescidas para garantir o máximo desenvolvimento dos colaboradores e dos líderes,  maximizando o retorno do investimento em pessoas e equipas.  É um desafio exigente.
Como é que a Kelly Services se preparou para os desafios destes tempos que vivemos?
Mantendo uma aposta constante no desenvolvimento dos seus recursos humanos e assegurando um serviço de excelência para o cliente, seja em tempos de maior expansão, seja em épocas mais moderadas.
E que propostas de valor tem a empresa para o mercado de recursos humanos e, consequentemente, para o tecido empresarial?
A Kelly Services é uma empresa multinacional, com expressão em dezenas de países, trabalhando com mais de 90% das empresas do «Fortune 100». Ao proporcionarmos soluções integradas de gestão de recursos humanos, da gestão de processos ao ‘outsourcing’, do ‘staffing’ ao recrutamento, do ‘executive search’ à consultoria, com vasta experiência simultânea internacional e local, garantimos qualidade com inovação, flexibilidade e adaptação total às exigências do cliente. A rede nacional e internacional permite também acompanhar o cliente na sua expansão em diferentes localizações.
A pressão sobre o emprego, que em Portugal é cada vez maior, como é que condiciona a atividade da Kelly Services?
Exige soluções flexíveis, rapidez de resposta e incremento de valor, que os nossos clientes sabem que podem encontrar nas soluções que, em conjunto, apresentamos e implementamos como as mais vantajosas.
Acha que o mundo português dos recursos humanos – ou se quiser, o nosso mundo do trabalho – é suficientemente conhecido para que se compreenda verdadeiramente as transformações que está a sofrer?
As transformações mundiais que têm ocorrido são complexas para todos, embora com maior impacto em alguns países. Portugal, como outros, é afetado por variáveis macro-económicas com maior impacto, pela sua maior exposição aos mercados, fruto das características da sua economia, políticas de desenvolvimento das últimas décadas e da estrutura da própria administração pública. O esforço de adaptação e flexibilidade terá de ser elevado, mas também o de inovar e procurar caminhos alternativos para pessoas e empresas.
As decisões governamentais sobretudo no âmbito laboral contribuem para essas transformações, ou estamos a falar de algo que não tem nada a ver?
Ao longo de muitos anos, a legislação laboral portuguesa tem sido, comparativamente, mais favorável aos colaboradores do que a existente na generalidade dos países europeus. Isto faz com que circunstâncias de ajustamento e flexibilização surjam como desfavoráveis face à realidade passada, e sejam potenciadoras de conflitos. Mas são inevitáveis, embora necessitem do já mencionado esforço de desenvolvimento paralelo, contrariando um ciclo de desinvestimento/ retração económica do qual dificilmente se sairá sem este.
O vosso estudo «Kelly Global Workforce Index» pode ser uma boa ferramenta para conhecermos a situação laboral portuguesa, dado que também é feito em Portugal? Esse estudo já tem um longo historial pelo mundo, e em Portugal começa a ser bastante referenciado.  Que papel pensa que poderá vir a ter no futuro?
O «Kelly Global Workforce Index» envolve amostras de dezenas de países e dezenas de milhares de respondentes, pelo que a sua representatividade é muito relevante. Com uma validade e uma fiabilidade asseguradas, e com milhares de participantes em Portugal, estes estudos assumem-se como dos mais representativos na área de gestão de recursos humanos no nosso país e as áreas que focam permitem gerar dados importantes para compreender a gestão de recursos humanos em Portugal, quer numa análise estruturada do passado, quer explorando tendências futuras.
Como olha para o futuro da Kelly Services no nosso país, sabendo-se que a presença é mundial e que a situação portuguesa é delicada em termos económicos, ao contrário da de outros países, que registam bons níveis de crescimento?
A Kelly Services tem uma proposta de valor para os seus clientes, independentemente da localização e do enquadramento macro-económico. Consequentemente, tem obtido um crescimento sustentado, nas várias regiões em que atua, incluindo em Portugal, mesmo na situação atual.
Trabalha certamente num ambiente multicultural. Como vive esta situação?
É propícia a um maior desenvolvimento pessoal. Exige uma adaptação a diferentes processos de trabalho, valores e atitudes, o que requer melhor capacidade de interagir com os outros em diferentes contextos e gerir melhor os interesses e as motivações.
Acha que os ambientes multiculturais serão cada vez mais o futuro nas empresas? E isso será uma vantagem competitiva para os recursos humanos portugueses? Ou, pelo contrário, deveremos preocupar-nos?
OS recursos humanos portugueses têm uma enorme capacidade de adaptação e de aprendizagem, e sempre foram capazes de utilizar o seu valor com sucesso dentro e fora de Portugal. Na Europa e no mundo, no geral, somos dos povos mais flexíveis e eficazes na integração em equipas multiculturais. Apenas precisamos de nos percecionar como um produto, entre aspas, e, como tal, de reforçar constantemente as nossas qualificações e competências, para sermos o mais atrativos possível. É uma política de valor acrescentado, na vida empresarial e na vida pessoal, ainda mais exigente de alcançar em tempos de maior escassez de recursos. Mas é de acreditar e manter a motivação, só há esse caminho.

 

10/02/12





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