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O que é que transportou da sua vida profissional de mais de 40 anos para o livro «Descubra o Líder que Há em Si»?
O pedido que a editora me fez foi o de que o livro refletisse, tanto quanto possível, as minhas experiências de vida no domínio da liderança. Foi o que procurei fazer, tentando ilustrar o modelo de liderança que apresento no livro, bem como todos os conceitos em que ele se suporta, com «estórias» verdadeiras – devidamente adequadas e adaptadas –, acrescentando depoimentos de pessoas que viveram situações de liderança nos mais diversos contextos. Procurei fazer um livro que refletisse uma abordagem vivencial de várias fases da minha vida, tanto pessoal como profissional, servindo-me de exemplos próprios e dos de um conjunto de pessoas com quem, por um imponderável ou acaso da vida, me cruzei neste longo percurso. Esta abordagem resultou do entendimento que sempre tive da importância da participação e do envolvimento dos outros como elementos nucleares na prossecução dos objetivos que me foram estabelecidos e a que me propus. Como opção de partida, não fiz um livro exclusivamente técnico, conceptual e teórico, tentei foi escrever uma «estória» com uma forte participação de gente, gente que desse relato das suas experiências – positivas e negativas –, e que isso fosse um estímulo à coragem e à vontade de, no domínio da liderança, as pessoas saberem poder ser capazes se forem confrontadas com a necessidade de liderar situações profissionais ou da sua própria vida.
Durante esses anos teve várias posições de liderança. Quando começou verdadeiramente a assumir essas posições?
Assumimos em toda a nossa vida situações de liderança, principalmente no dia-a-dia, seja na família, seja no grupo de amigos ou na relação individual que temos com a vida, o que nos leva a liderar as nossas opções e as nossas tomadas de decisão. Esta é uma visão da liderança informal a que não damos muita importância, todavia é fundamental para nos conhecermos como pessoas que somos ou como líderes que podemos ser. Normalmente o tema da liderança está associado, recorrentemente, às empresas e às instituições, o que do meu ponto de vista constitui uma abordagem redutora. Pela próprio natureza das coisas, onde se inclui a evidência de termos que viver, atuar, trabalhar, etc, e das ações, decisões e opções que isso implica e com que nos defrontamos e que temos que integrar na vida que temos que viver, muitos de nós, para não dizer todos – onde me incluo – fomos confrontados com experiências de liderança. No meu caso, foi na guerra colonial, o que marcou positiva e negativamente, dada a inexperiência e a imaturidade de vida, a agressividade das situações e a imponderabilidade dos resultados, todos os que por lá andaram. Posso dizer que viver essas situações foi uma grande escola, amarga, certamente, mas que me deu preparação para enfrentar novas situações, mesmo em clima de dificuldades acrescidas. Foi uma excelente escola de liderança, tanto sobre mim próprio, sobre o meu conhecimento e a descoberta dos meus limites, como dos outros e da complexidade da condição humana. Já no que se refere à minha atividade profissional, mais importante do que os cargos formais que desempenhei e para que fui nomeado no grupo empresarial onde trabalhei, foi a possibilidade de liderar importantes projetos de mudança que eram globais e transversais a toda a organização, onde tive a felicidade de aprender. Aprender muito e sobre variadas coisas, vivenciar dificuldades, obter resultados e, principalmente, trabalhar, cooperar, criar solidariedades e compromissos com pessoas e avaliar a sua determinante importância no sucesso de qualquer projeto que se queria implementar. Para mim, reside aí a essência da liderança, de ser líder e, já agora, do sucesso dos resultados.
E houve alguma altura em que tenha descoberto em si próprio um líder, ou tratou-se de algo construído ao longo do tempo?
Nunca me descobri como um líder e nunca me vi como um líder. Limitei-me a desempenhar funções e viver situações em que tive que assumir, em determinados momentos, responsabilidades de liderança. Umas vezes bem, com sucesso, outras vezes não tão bem. A perfeição vai-se desenvolvendo ao longo do tempo. É como a vida. Aprende-se a vivê-la vivendo-a. Mas deixe-me dizer-lhe… Não se nasce líder, não se decreta «vou ser líder», não se estuda para ser líder, não se olha para o espelho uma bela manhã e então diz-se «vou ser líder». Isso é uma visão impregnada de vaidade e de superioridade. Ser-se líder é, muitas vezes, uma circunstância da vida, onde somos chamados a gerir emoções e ações, nossas e dos outros, no sentido de obter distintos resultados. Emergem nessas alturas, determinadas capacidades que possuímos, muitas vezes desconhecidas, capacidades que nos vão levar, a nós e aos outros, a sermos capazes de fazer acontecer as coisas e obter esses resultados.
Que ensinamentos retirou dos líderes com quem contatou ao longo dos anos?
Muitos e diversos, mas principalmente o respeito e a consideração pelos outros, pelas pessoas, consideradas individualmente ou em grupo, sem as quais não conseguimos obter os resultados pretendidos. Depois, coisas como a integridade, a coragem, o compromisso, a ambição, a coesão, o dar o exemplo, a tomada de decisão, enfim, a ética.
Como olhava para esses líderes nos primeiros anos enquanto profissional? E mais tarde, já em posições de liderança, como olhava para os líderes com quem interagia?
Sempre como exemplos. Exemplos a seguir, comprometidos que estavam, sempre, em fazer mais e melhor e em ensinar, porque um bom líder é aquele que faz outros líderes.
E em termos do que podia transmitir aos outros, sobretudo na liderança de grupos, quais foram as suas principais preocupações?
A coesão baseada nas diferenças de emoções, de conhecimentos, de capacidades, de saberes, de personalidades. Liderar é saber conjugar o verbo acreditar. Liderar é levar as pessoas a perceber que é na diferença que se constrói a coesão dos grupos, através da identificação com uma missão, na defesa dos mesmos valores, na prática da mesma ética e na solidariedade de sabermos ser diferentes entre iguais.
Depois de escrever um livro sobre liderança, sente que falar da liderança é diferente do ato de liderar? Ou quem fala de liderança é à partida um líder indiscutível?
Há um ditado que diz que «o hábito faz o monge», o que dizer que um líder que o seja efetivamente tem todo a capacidade para falar dos problemas de liderança, porque os viveu, os sentiu e os resolveu. No último capítulo do livro que publiquei, há um conjunto de depoimentos de pessoas que assumem, atualmente, posições de liderança, depoimentos que são verdadeiras lições sobre o tema. Esses depoimentos foram lá postos, de propósito, para o leitor poder contatar com verdadeiros relatos sobre as dificuldades reais, não teóricas, do que é liderar em diversos contextos. Obviamente que, como noutras circunstâncias na vida, há muitos teóricos que tudo sabem e de tudo falam sem a vivência da realidade. Mas isso é outro assunto.
O que é que espera deste seu livro, em termos de mensagem a passar aos leitores?
É um lugar comum dizer que um livro, quando publicado, deixa de ser pertença do autor e será sempre o que o leitor quiser. Modéstia à parte, é o que pretendo com «Descubra o Líder que Há em Si». Por ser um livro essencialmente assente na vivência de situações reais de liderança e que põe o ser humano como o principal ator dessas vivências, gostava que o livro pudesse contribuir para que as pessoas acreditassem, essencialmente, nelas próprias e nas suas capacidades, e que, de forma integra e honesta, tivessem a vontade e a coragem de querer com a sua ação produzir as mudanças desejadas.
Esses leitores, poderão ser pessoas que estão em posições de liderança, independentemente do tipo de organizações ou grupos, ou poderão ser as mais variadas pessoas?
Como disse na resposta anterior, no diálogo que vai estabelecer com os diferentes públicos o livro será aquilo que estes, tanto do ponto de vista racional como do ponto de vista emocional, quiserem. Esse é um dos sortilégios da escrita e da leitura. O autor e o leitor são duas entidades míticas que se encontram/ desencontram através desse íntimo objeto que é o livro. E digo íntimo porque é na intimidade da escrita e na intimidade da leitura que se pode estabelecer o diálogo. Que diálogo? Não sei. Depende do leitor. Para mim, enquanto autor, fiz da honestidade um compromisso e da sinceridade uma ambição.
Acha que qualquer pessoa pode descobrir o líder que existe nela própria, ou haverá muita gente que não pode aspirar a isso?
Toda a vida tem uma medida, todo o ser humano tem um futuro, toda a realidade tem uma vivência. Não sendo a liderança um estatuto, um dogma, uma aristocracia, um dom, uma predestinação, um cargo, um poder atribuído, acredito que qualquer pessoa possa vir a assumir o papel de líder em determinadas circunstâncias ou em determinados contextos. Tive a oportunidade de assistir a muitas situações dessas.
Já lhe falei nas diversas posições de liderança que assumiu ao longo da sua carreira, mas pode particularizar: por exemplo, teve de alguma forma papéis de liderança durante a sua participação na guerra colonial, e que contraponto faz com a experiência de liderança nas empresas, nomeadamente no Grupo Multipessoal, onde esteve até há pouco tempo?
Há particularidades essenciais no exercício da liderança que são mais ou menos desenvolvidas ou utilizadas, dependendo das características dos grupos humanos, dos contextos que se vive e dos resultados esperados. É isso que pretendo explicar no livro. Particularidades como a integridade, a autoridade, a capacidade de acreditar, o compromisso, a ambição, a coragem, a tomada de decisão, o exemplo a dar, a coesão do grupo e a ética devem estar sempre presentes na ação de um líder independentemente do contexto. É evidente que liderar numa guerra ou numa empresa é fazê-lo em contextos completamente diferentes. Mas os instrumentos foram os mesmos, só que utilizados em escalas diferentes.
E no deporto, onde tem experiência, como é para si a liderança? No caso de desporto motorizado, nomeadamente nas corridas de automóveis em que participa, como se materializa essa liderança?
Aplica-se o mesmo que referi na resposta anterior, só que com uma pequena/ grande diferença: o desporto que pratiquei, fi-lo de forma lúdica, sempre séria, mas lúdica; ter estado na guerra e em empresas não é a mesma coisa, são contextos diferentes, bem diferentes.
Vai escrever mais sobre liderança, ou vai passar a outros temas ligados a gestão?
Não é minha vontade dedicar-me à escrita sobre temas de gestão, embora não exclua participações pontuais, principalmente em crónicas ou artigos de opinião. Acabo de publicar um livro de poesia, «A Voz das Pedras», na Chiado Editora, e estou a trabalhar num livro sobre as vivências da guerra colonial, a pedido da Livros de Hoje», do Grupo Leya, livro que espero publicar este ano. Quero dedicar-me à ficção e à poesia, isto se tiver talento e mérito, evidentemente. Os editores e os leitores terão a palavra.
Para acabar, como comenta uma célebre frase de Salazar, com a ideia de que as pessoas, se soubessem o que custa mandar, haveriam de querer sempre obedecer?
É uma frase tão horrível, eivada de uma incrível hipocrisia, reveladora do enorme desprezo que essa sinistra figura tinha pelas pessoas que não merece qualquer comentário.
Mandar para ser obedecido, assente numa polícia política, na institucionalização do medo, na promoção da cobardia, no arbítrio das prisões e das torturas, no recalcamento do silêncio, na perseguição do pensamento diferente, na censura da palavra, para citar só alguns dos alicerces em que Salazar construiu o seu poder e o seu mando, é qualquer coisa que, apesar destes tempos de conturbada e incipiente democracia, já deveriam estar no completo esquecimento.
Infelizmente, ainda anda por ai muito boa gente que confunde liderança com mando e obediência.
Provavelmente, esse é, hoje, o tema mais atual. O do exercício do poder. Como o poder confiado a homens como nós, pode, em muitos casos, ser exercido como instrumento de obediência alienada ou de destruição dos outros.
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